sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Cecília


Foto: Silvia Pinheiro


e eis que nesta manhã preguiçosa
tal aroma cruzou meu caminho
pétala alçada ao longe, há tanto
ainda assim perfumosa
alcançou-me em carinho
em encanto



domingo, 11 de dezembro de 2011

E daí?


Foto: Waldir C. Marinho


“Eu não entendo essas mulheres de hoje em dia, qualquer coisinha querem a separação, não insistem, não têm paciência. 
Eu hein, não cuidam mais dos maridos. 
Na minha época era diferente, imagina fazer naquela época isso que fazem hoje em dia. 
Tudo bem, todo mundo quer se sentir bem, é normal, mas é preciso ter mais companheirismo, mais tolerância. 
E olha que hoje elas tem tudo, tem tudo mesmo, muito mais que as mulheres tinham há anos atrás. 
Imagina se essas meninas de agora tivessem vivido na minha época. 
Eu não entendo, querem casar, depois logo querem separar, porque? 
Não gostavam dos maridos? 
Não diziam tanto que queriam casar? 
E depois não querem mais? 
É falta de amor, só pode ser falta de amor. 
Meu casamento dura há anos, há anos, e eu sou muito feliz. 
Não foi sem dificuldades, não pensem que foi fácil, mas valeu a pena, muito, e eu tenho consciência do quanto contribuí para dar certo. 
E olha que eu amo, e sei que tenho retorno. 
Às vezes fico quieta, sim, não vejo problema nisso, a gente precisa saber quando deve falar e quando não deve falar, para o bem de todos. 
O que me importa é que consegui construir isso tudo, meu lar, minha família. 
Posso até ser considerada submissa, talvez sim, e daí?”

Ouvi, respeitoso, o desabafo da distinta senhora.
Calei.

domingo, 20 de novembro de 2011

Mano


Foto: Waldir C. Marinho


Vejo-o passar rumo ao quintal dos fundos, onde armazena materiais que recebe, por doação, de diversas pessoas. Garrafas pet, metais, etc. Vai juntando aos poucos, recolhe, guarda, organiza. Depois de dias enche o carro com estes materiais e leva para vender e doar os valores obtidos à caridade, para a creche onde faz trabalho voluntário. Organiza jantares, almoços, eventos vários, trabalha nestes eventos, vende rifas, livros, tudo isso para angariar fundos para a creche. Entra em contato com os sócios que contribuem com valores mensais, que por vezes esquecem de seus compromissos assumidos, mas ele os procura e os lembra, sempre com paciência, sempre de forma cordial. Busca novos sócios. Faz essas e muitas outras tarefas para esta creche.
Trabalho infindo.
Só quem já teve contato direto com alguma entidade assistencial sabe das dificuldades em manter o trabalho, por falta de recursos financeiros. Refiro-me às entidades filantrópicas sérias, reais, que fazem jus ao título, como esta pequena creche onde ele é voluntário.
Além desse trabalho voluntário ele tem, é claro, atividade profissional como qualquer um, e seu trabalho é exaustivo. Não raro testemunho sua rotina sem horários fixos, trabalha em finais de semana, feriados, a qualquer hora do dia ou da noite o celular da empresa toca requisitando seus serviços. É bem comum ele virar a noite trabalhando, sua empresa o consome demais. E ele ainda consegue tempo e forças para continuar como voluntário na creche que comentei.
E para muito mais. Ele continua, além.
Está sempre disposto a ajudar. A todo mundo. Familiares, amigos, vizinhos. Conserta uma coisa aqui, instala um aparelho ali, dá carona a uma pessoa hoje, toma conta do filho de algum amigo amanhã.
Está sempre disponível para, com toda boa vontade, servir, apoiar, ajudar.
Quando vejo pessoas comentando que não estão com tempo para fazer uma ou outra coisa, ou quando eu mesmo penso desta forma, nestes momentos eu lembro dele, do quanto ele consegue fazer com o tempo que dispõe.
Uma pessoa muito especial, meu irmão.
Ele faz tanto e não espera retorno, não aguarda nada em troca. Faz isso tudo com resignação, sem reclamar, sem incomodar a ninguém. Nunca ouvi uma só queixa. Ele vai e faz, ajuda, sem fazer qualquer alarde. E ainda acha que faz pouco.
Meu irmão freqüentemente liga para mim só para me perguntar "como estão as coisas?". Escrevo estas linhas e me pergunto, quando terei eu feito o mesmo por ele? Nem lembro. Nem sei se já fiz. E pior, creio que nunca agradeci por isso. E como estas suas ligações inesperadas já me fizeram sentir melhor em momentos de dificuldades. Sou muito grato a ele por isso.
Tem sempre a oferecer uma palavra amiga, um sorriso. 

Enquanto muitos no entorno, eu incluído, discutimos sobre detalhes menores da vida, meu irmão vai lá e ajuda a quem precisa e pronto.
E há pessoas que desdenham do que ele faz, fazem piada. Mas ele não dá a mínima. Em vez de se preocupar com com o que dizem meu irmão continua, firme, em seu trabalho de doação.
Outro dia ouvi alguém, em favor dele, lamentar: "Ele é uma pessoa maravilhosa, ajuda a todo mundo, e ninguém dá valor, ninguém!"
Deus dá.




P.S: Quem quiser conhecer a creche que comentei, onde meu irmão é voluntário, basta clicar no link: http://www.crechenossolar.org.br/


domingo, 6 de novembro de 2011

Perdido


Foto: Mario Marinho


Estava tomando café na padaria próxima de minha casa, domingo de manhã, lendo um livro, uma das coisas que eu mais gosto de fazer.
Levantei o olhar, algum movimento me chamara a atenção. Havia um rapaz do lado de fora, no estacionamento em frente. Conversava com uma pessoa que passava. Percebi algo estranho no olhar do rapaz. Ele deu um passo adiante e pude ver um copo em sua mão. Cerveja.
Continuei em minha leitura, ao menos tentei.
Imaginei inicialmente que seria alguém voltando da "balada". Quando vou aos domingos na padaria, bem cedo, é comum encontrar adolescentes voltando das noitadas, por vezes bebendo. Mas não parecia ser o caso daquele rapaz, as roupas, a idade, uns trinta e cinco ou mais, não combinavam muito bem. Também não aparentava ser uma dessas pessoas viciadas em álcool que parecem passar mais tempo nos bares que em suas casas.
Olhei novamente, ele caminhava meio tonto, e falava muito. Nove horas da manhã e o rapaz bêbado.
Voltei ao livro e ao meu café.
Logo o rapaz entrou na padaria, pediu outra cerveja, e começou a conversar com alguns funcionários. Não consigo nem descrever direito o que ele falava, palavras desconexas, sem lógica. Olhar vago. Independentemente de sua atitude inconveniente ele era tratado pelos funcionários da padaria de forma cordial, parecia ser um cliente conhecido.
Depois fiquei sabendo que aquele era um cliente antigo, uma pessoa querida por todos, e o motivo daquela situação era que o rapaz havia acabado de se separar da mulher, e há dois dias estava por ali, bebendo.
Terminei o café, fui saindo e, no momento em que pagava comentei com o atendente do caixa se aquele rapaz não teria um familiar ou um amigo que pudesse levá-lo para a casa dele.
O atendente comentou: "Pois é, tem cara que é assim, fica ligado numa mesma mulher a vida toda, aí quando se separa fica desse jeito, perdido. É por isso que eu tenho várias, ontem mesmo saí com duas".
Fiquei me perguntando quem estaria mais perdido.



sábado, 15 de outubro de 2011

A meus mestres


Meus queridos.
Vera, Jorge, Célio, Roberto, Artêmia, Rinaldo, Afonso, Edilberto, tantos outros, no jardim de infância, colégio, faculdade, pós graduação, alguns dos quais nem lembro os nomes mas guardo imagens, ensinamentos, broncas, exemplos, sentimentos. Pessoas importantíssimas, fundamentais.
Tia Adi, inesquecível, se aqui escrevo é graças a você.
Muitos outros.
Meus professores de vida, principalmente meus pais, meus irmãos, familiares, amigos.
Tantas pessoas queridas, lindas, algumas já se foram, que me ensinaram, me ensinam, demais. A tentar ser mais cordial, mais generoso, mais ativo, mais forte, mais compreensivo. A ter mais paciência, a ser mais humano, mais irmão. A ser solidário, mais amigo. A buscar dominar meus medos, superar minhas deficiências, aprender com minhas falhas. A procurar errar menos. A acreditar mais em mim. A sentir mais gratidão. Ter mais religiosidade, mais fé. A perdoar. A continuar, mesmo diante de amarguras, a acreditar, no carinho, no compromisso, na fidelidade, na dedicação, na paixão. Na vida.
Minha filha linda, que me ensinou, de fato, o que é o amor.
Jesus, o maior de todos.
A todos meus grandes mestres, lamento pelos momentos em que demonstrei não ter aprendido direito, e agradeço por suas presenças marcantes em minha vida, por insistirem comigo, pelo tanto que fizeram por mim, e espero em Deus conseguir, em retorno a tantos ensinamentos, tantos exemplos, tanta doação, ser alguém merecedor.



sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Ele retornou




Passei a mão em seus cabelos, olhei para seu rosto. 
Seus olhos, com o passar do tempo, tornaram-se azuis. Assim me pareceu, um azul celestial, como a antecipar a aproximação do presente momento.
Beijei sua fronte, três vezes, e lhe sorri. Ele piscou uma vez e me dirigiu o olhar. Esta não foi a última vez que o vi, mas creio ter sido o último momento em que ele me percebeu, ali, em sua frente.
Por instantes, admirei seus olhos.
Tanta experiência, tanta sabedoria, naquele olhar.
Deus, em sua infinita generosidade, permitiu que ele estivesse entre nós por tantos anos.
Mas chegou a hora, e o anjinho retornou, para seu lugar.



segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Periferia


Foto: Mario Marinho


Regiões de pobreza, inúmeras, imensas, circundam ou entremeiam as grandes cidades. Miséria, favelas, tráfico de drogas, violência e outros tantos fatores associados fazem parte da realidade dos moradores desses locais. O que sabemos sobre estas pessoas, suas vidas, seu dia a dia? Creio que muito pouco. Dependendo do local em que se mora, onde se trabalha e se vive o dia a dia, é possível uma parcela da população não ter muito contato direto com as periferias. Isso ocorre em São Paulo, por exemplo, uma cidade com a característica de ter estas áreas de pobreza em maioria distantes da região central. Mas mesmo que não nos aproximemos destes locais com frequência sabemos que eles existem, pela mídia, pela internet, ou outros meios. Sendo assim, qual será o motivo do nosso desconhecimento acerca do que ocorre nestas regiões mais pobres? Será por não frequentarmos esses lugares, ou na verdade preferimos ignorar estas pessoas?

Bem, acho que esta resposta é algo próprio de cada um. Nós que vivemos em grandes centros e fazemos parte de uma classe com certo nível sócio-econômico, desfrutamos de realidades bem diferente de milhões de moradores de regiões periféricas e parece que não nos importamos muito com as vidas deles. Acredito que isso pode soar estranho ou injusto, mas tentando responder por mim assumo que, embora eu até demonstre me importar em uma ocasião ou outra, como através deste texto, reconheço que em geral eu vivo sem exercer qualquer ação efetiva para auxiliar estas pessoas e até sem pensar muito nelas. Desconheço muito do que de fato ocorre na periferia e pouco contribuo, sendo assim é como se eu a ignorasse, ao menos em grande parte do tempo. Essa é a minha resposta, sincera, cada um tem a sua.

Vivendo no centro, levamos nossas vidas sem nos importar muito com estas pessoas, ou sem fazer muita coisa por elas, quase como se a periferia não existisse. Estou usando a palavra "periferia" como sinônimo, ou símbolo, de algo que pouco conhecemos, sendo a miséria, o crime, a violência, parte disto. Uma difícil realidade que, por vezes, nos alcança. Tantos problemas, tamanho desequilíbrio, acaba por extravasar, romper os limites do gueto, talvez seja inevitável que isso aconteça. E é nestes momentos que a periferia chega ao centro, chega até nós.

Continuamos a ignorar a periferia até que esta, de repente, nos aparece.

Por exemplo, quando num semáforo uma criança maltrapilha nos pede esmola. Seria mais simples olhar para a frente e, enfatizando nosso descaso, aumentar o som do carro, evitando a consciência daquela pessoa ali ao lado, mas isso não é possível. Sim, pois sentimos pena, ou medo. Ali somos obrigados a entrar em contato direto com a periferia, que por vezes até bate no vidro do carro para chamar nossa atenção. Podemos continuar com a janela fechada até a luz verde acender, mas não adianta pois já está feito, fomos alcançados, incomodados, invadidos em nossa zona de segurança. Percebemos que temos muito mais condições de vida que aquela pessoa ali ao lado, que não tem quase nada, e isso nos envergonha. A alguns de nós, ao menos, envergonha. Mas o máximo que fazemos é dar uns trocados, torcendo para que este contato seja breve, e aí depois arrancamos com o carro para o mais rápido possível esquecermos novamente a periferia. Até que ela nos alcance novamente, no próximo semáforo, numa das esquinas da vida.

Caro irmão, cara irmã, está cada vez mais difícil ignorar a periferia, não é mesmo? Você já foi assaltado? Já lhe apontaram uma arma, um revólver? Espero que não. A mim já apontaram mais de uma vez.

E qual é a solução? Quem sou eu para afirmar algo a este respeito. Ações sociais, investimento em educação, cultura, esporte, lazer, inclusão, combate à criminalidade, maior distribuição de renda, redução das desigualdades sociais, entendo que tudo isso faz parte da solução e já vem sendo feito. Mas certamente é preciso mais, muito mais.

É preciso ajudar, sim, e acho que este auxílio, que não me parece simples de efetuar, deve ser feito através de uma real compreensão da periferia, esta precisa ser ouvida e sinceramente entendida. Ser aceita, abraçada. Ao arrancarmos com o carro no semáforo estamos caminhando na direção oposta, fingindo não ver o problema até a próxima vez em que a periferia transbordar novamente, o que pode acontecer logo ali adiante. Seres humanos, pessoas iguais a nós, que estão sofrendo, passando necessidades, precisam ser amparados, não podemos continuar a lembrar da periferia apenas quando esta nos alcança em situações que nos são incômodas, essa é uma atitude egoísta que só mantém o problema, em prejuízo de todos.

Fico imaginando, e se ampliarmos o contexto, considerando o mundo inteiro, qual seria a periferia do mundo? Existe isso, a periferia do mundo? E qual seria o centro? Bem, existem países imersos em grande pobreza, desequilíbrio social, guerras, conflitos internos, contrastando com outros países da mais absoluta riqueza e prosperidade, certamente há vários representantes dos dois lados. Se pudéssemos eleger uma capital mundial esta seria representada, acredito, pelos Estados Unidos da América.

Na minha opinião o dia 11 de setembro de 2001 foi um momento marcante em que a periferia do mundo extravasou, rompeu os limites periféricos, e alcançou o centro. Não há nada mais simbólico que o mais rico país do mundo ser quase que paralisado por um ato terrorista que apagou as luzes de uma das suas principais capitais. Mesmo com todo o seu poder econômico, político, bélico, a principal nação do planeta não conseguiu evitar ser alcançada pela periferia mundial. E a suposta solução que se seguiu, pálida, ineficaz, egoísta, a meu ver está longe de ser uma real solução: guerras, mais violência, a morte de Bin Laden, que já foi substituído por um outro que futuramente também assim o será.

Todos nós, das capitais do mundo, estamos tomando medidas para ajudar, aceitar, abraçar, compreender a periferia mundial?

Ou apenas estamos arrancando com o carro, rumo ao próximo semáforo?




Comentários adicionais:

Quem quiser conhecer mais da realidade nas regiões periféricas brasileiras, o crime e todos os fatores associados, indico os livros:
     - Falcão, meninos do tráfico (Mv Bill e Celso Athayde)
     - Cabeça de porco (Luiz Eduardo Soares, Mv Bill e Celso Athayde)
     - Abusado (Caco Barcelos)
     - Estação Carandiru (Drauzio Varela) 
     - Elite da Tropa 1 (Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel)
     - Elite da Tropa 2 (Luiz Eduardo Soares, Cláudio Ferraz, André Batista e Rodrigo Pimentel)

Para quem tem interesse em saber mais sobre a vida nos países árabes, muçulmanos, cultura, religião, conflitos, detalhes sobre o fundamentalismo islâmico e outras questões, indico os livros abaixo:
    - O vulto das torres (Lawrence Wright)
    - O livreiro de Cabul (Asne Seierstad)
    - 101 dias em Bagdá (Asne Seierstad)
    - O caçador de pipas (Khaled Hosseini)
    - A cidade do sol (Khaled Hosseini)
    - Filho do Hamas (Mosab Hassan Yousef, com Ron Brackin)


*Entendo que este texto foi influenciado pelos livros citados acima.




segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O menino da AACD


Foto: Melissa Marinho


Neste dia foi diferente, o ambiente que normalmente era apinhado de pessoas estava vazio. Ainda assim sentei à mesa para desfrutar meu café, como de hábito, observando o local em silêncio. Estava no saguão de entrada, na cafeteria que fica junto à recepção da AACD do Ibirapuera, São Paulo. Somente a atendente que servira o meu café me fazia companhia.

Vocês certamente conhecem a AACD, uma instituição filantrópica de apoio a crianças deficientes, muito tradicional, ativa e séria, presente em diversos estados. Para conhecer mais basta usar o link: www.aacd.org.br

Tenho um cliente na cidade de São Paulo, um hospital, que fica ao lado de uma das sedes da AACD, esta no Ibirapuera. Lá nesta sede tem um estacionamento rotativo aberto ao público, e sempre que vou visitar este hospital que citei eu deixo o carro no estacionamento da AACD. Comecei a usar o estacionamento deles, há anos, porque era a única opção para deixar o meu carro no local, uma região muito movimentada e sem outras opções. Hoje faço isso por outros motivos. Acredito que a arrecadação com aquele estacionamento deve ser importante para eles, e lá também há uma loja com diversos produtos da AACD, chaveiros, camisetas, que por vezes compro para ajudar. 

Mas há um outro motivo importante para eu sempre passar por lá. Quando eu retorno da visita ao cliente, antes de pegar meu carro, costumo tomar um café na cafeteria junto à recepção e ao fazer isso fico sentado, por alguns minutos, olhando para aquelas pessoas. Um ir e vir muito grande, crianças com necessidades especiais, suas mães e irmãos as acompanhando, trabalhadores, voluntários, muita gente. Gosto de fazer isso, propositadamente, para repensar minha vida, para pôr os pés no chão e lembrar que eu tenho que agradecer muito a Deus. Naqueles instantes, enquanto tomo meu café, eu vejo com clareza que meus problemas são mínimos. Diante da realidade daquelas pessoas tenho até vergonha dos meus problemas, supostos problemas, assim me parecem enquanto permaneço ali naquele local.

Naquele dia em especial foi interessante, eu quase esquecera de tomar o café como sempre faço e já estava indo pegar meu carro, quando lembrei. Eu não estava num dia muito bom, meio sem paciência, um tanto triste, quase desisti da idéia de tomar o café mas... a cobrança interna por aquele meu compromisso íntimo falou mais alto, a consciência pesou, e voltei. Mas por algum motivo, talvez pelo horário já no fim da tarde, não havia ninguém, a recepção da AACD estava vazia. De qualquer forma pedi meu café e fui tomá-lo sentado a uma das mesas do local. Fiquei ali por uns instantes, achando que iria embora sem ter contato com mais ninguém.

Mas aí em dado momento um dos elevadores próximos chegou ao térreo, a porta abriu, e saiu um menino, uma das crianças atendidas. Saiu correndo do elevador, apressado, em sua cadeira de rodas.

Enquanto o menino rumava rápido em direção ao balcão da cafeteria para escolher seu lanche uma coisa me chamou muito a atenção. Não, não foi o fato de ele usar uma cadeira de rodas, não foi a sua situação. Também não foi pena o que senti ao ver o menino, não foi compaixão. O que mais chamou a atenção naquele menino foi o seu sorriso. Ele, em sua cadeira de rodas, com lá seus 12 anos, e um sorriso lindo, contagiante.

Fiquei de início um pouco envergonhado, sim, ao ver aquela criança com tamanha alegria de viver e eu acabrunhado no meu canto. Mas aos poucos fui ficando feliz também, por ele, com ele. Aquela situação me tocou, observei a alegria de viver daquele menino, uma alegria muito intensa, ele nem parecia ter problemas. O menino e sua mãe pegaram o lanche e saíram pelo corredor, sumindo de vista.

E eu fiquei, sentindo uma grande gratidão porque aquele menino, que talvez nem me tenha notado ali sentado, mas que com seu sorriso, com sua alegria, transformou o meu dia.




quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Ela é demais


Foto: Waldir C. Marinho


Ela é inteligente, espirituosa, alegre, divertida.
Damos muitas risadas juntos.
Com ela converso sobre música, futebol, filosofia, sobre um monte de coisa.
Ela tem uma visão parecida com a minha sobre religião e religiosidade.
Eu e ela vemos o mundo de forma semelhante.
Ela gosta muito de ler, eu também, conversamos bastante sobre literatura, adoramos visitar livrarias e ver as novidades.
Nós dois gostamos de diversas coisas em comum.
O tipo de filme que ela mais gosta é drama, outro dia conversamos a respeito e eu acabei chegando à conclusão que essa também é minha primeira opção.
Ela se interessa por política e eu também, mas eu estava meio afastado, só que ela está me fazendo pensar diferente e voltar a me interessar e a cobrar de mim mesmo uma postura política mais atuante.
Eu adoro estar na companhia dela, muito mesmo.
No último domingo ao vê-la do outro lado da rua esperando para atravessar e encontrar comigo, com um presente na mão para me dar, eu não resisti e as lágrimas rolaram. 
Acho que ela nem viu, eu enxuguei o rosto e quando ela se aproximou de mim eu procurei disfarçar a emoção.
Ela tem 12 anos, e eu a amo.



domingo, 7 de agosto de 2011

Dom


Foto: Tatiana Girotto


nascente
fértil
brota
pinga
corrente
flui
batiza
irriga
leva
corre
vai

o chão
infiltra
habita
aduba
germina
cria
sacia
ajuda
das nuvens
nasce
cai

na pele
emana
limpa
banha
o que ora
n'alma
aflige
arranha
acalma
foge
sai

dos olhos
morna
escorre
filtra
a dor
no peito
amarga
aflita
transforma
morre
esvai

sutil
matéria
leve
pura
é vida
mar
beleza
cura
milagre
dom
do Pai