sábado, 1 de outubro de 2016

Sons

Foto: Waldir C. Marinho
Clique, fez o semáforo, quando passei por ali em direção ao ponto. Tinha razão o autor de um texto que li quando criança, os semáforos realmente emitem um quase inaudível clique quando mudam de cor. Seria impossível essa percepção não fosse tão cedo, antes das seis da manhã, e a avenida vazia, silenciosa. Ou terá sido obra de minha imaginação sonolenta? Nem sei.

A vida desperta aos poucos, em meio ao breu. Enquanto caminho me alcançam os tons pastéis obnubilados pela escuridão, a miscelânea de odores, e principalmente os sons. O leve farfalhar das folhas de uma árvore na praça. Pequenos trinados. Um tilintar à distância. Meus passos. O vibrar do dia que inicia.

O som de algo vindo adiante, vejo um rapaz em uma bicicleta, deve ser aquele da mochila. De fato, sempre no mesmo horário. A rotina do homem se mostra junto aos sinais naturais, o céu, a brisa. Natura e urbe se mesclam, em recíproco flerte, em comunhão.

Paro no ponto, ainda sozinho. Mas não, noto um roçar mais acima, por entre os ramos da pequena árvore ensombreada logo ao lado. Meu companheiro de toda manhã, o bem-te-vi canta, uma vez, me desejando bom dia. Pra você também meu amiguinho. O passarinho sempre está ali mas, no escuro, apenas o percebo através dos sons. 

Ouço o longo e suave chiado rotineiro, ah, então são seis horas. No outro lado da rua, lá na frente, o posto de combustível inicia as atividades, e o rapaz de sempre recolhe as correntes que cercam o ambiente, arrastando-as pelo chão.

Mais adiante a padaria, já acesa, distantes sons, alguém puxa uma mesa, um alegre assobio, consigo ver a funcionária que, enquanto prepara o salão para o expediente, entoa uma canção, anunciando o despertar de uma nova manhã.

Passos, vagarosos, certamente é aquele senhor. Ele mesmo, vejo-o chegar devagar. Deve ter mais de setenta, mas sempre está ali indo ao trabalho com sua pastinha surrada. "Bom dia", ele me abençoa ao passar por mim, eu respondo, sorrindo, esperando que à altura. Sinto simpatia. Sinto compaixão.

Som característico de um veículo que logo aparece após a curva. 
Vem chegando minha condução. 
Sigo em frente. 
Amém.



domingo, 4 de setembro de 2016

20 mil




Minha escritora preferida, romancista seleta, aquela que escreveu o melhor livro que já tive a oportunidade de ler, a caríssima Isabel Allende certa vez passou por um período de, digamos, entressafra literária. Não conseguia escrever. Só que ela não podia se dar ao luxo de nutrir este capricho por conta de compromissos assumidos, contratos, etc. Precisava entregar um livro em certo período de tempo. Então decidiu escrever um livro de receitas culinárias, foi sua maneira de dar tempo ao tempo mas ainda assim conseguir cumprir suas metas profissionais, já que a inspiração falhou.

Se ela passou por isso, porque não eu? Rs.

Parei mesmo, como nunca, por vários meses. O último texto data de maio, mas neste eu comentava justamente sobre este meu momento árido, e antes deste último texto fiquei por meses sem postar nada. Logo essa atividade que tanto me satisfaz, mas, nem sei, a fonte secou. Pareceu secar.

Em meu caso particular escrever trata-se de algo amador e pessoal, mas embora eu não tenha as demandas que Isabel Allende possui, de público, empresários, contratos... ainda assim tenho minhas próprias demandas. Neste quesito, em forte conta, principalmente as cobranças internas.

Certo dia desses, quando eu já recomeçava a pensar em tentar alguns novos escritos, entrei em meu blog e pude notar que nesse tempo em que deixei de escrever o blog já passou dos vinte mil acessos, e a fanpage do blog no Facebook está com mais de dois mil likes. Não acho pouco para um blog absolutamente pessoal, sem divulgação além de poucos posts nas redes sociais. Então, mesmo tratando-se de um blog dedicado a textos próprios e reflexivos, pouco atrativos talvez, ainda assim há algo construído, não apenas através dos textos, mas também através do público associado a estes que se formou neste periodo. 

E nestas idas e vindas já se vão mais de seis anos de blog.

Alguém terá se importado com esta minha recente ausência? Talvez não. Mas eu me importei, demais. Porque me faz bem escrever. Porque, quero acreditar, meus textos podem construir algo, podem promover, mesmo que de forma mínima, algo positivo. Será? Quero crer que sim, que meus escritos podem alcançar almas. Será isso que acabei de escrever algo pretensioso? Não pretendi soar assim. Só sei dizer que, se uma alma já foi alcançada, nesse tempo todo, já valeu a pena.

Então, com estas palavras em mente, retorno. Com minha visão da vida, minhas experiências, minhas reflexões. Tentarei um texto por mês, como já fiz em muitas ocasiões, mas se assim não conseguir em um mês ou outro, tudo bem. 

Nobre amigo, nobre amiga, continuarei a compartilhar com você minhas ideias, meu íntimo, esperando que possa contribuir de alguma maneira com sua vida. Muito obrigado, muito mesmo, por sua presença. Assim seja.


quinta-feira, 12 de maio de 2016

Nada


Saí de casa, amanhecia.
Primeiros raios da alvorada por sobre as casas ainda às escuras.
Vi pessoas caminhando, ao trabalho, sozinhas em seus mundos.
Crianças, já com uniformes do colégio, tão cedo.
Um senhor caído na calçada, dormindo, naquele momento devia estar em sua casa, não ali, no frio.
Respirei fundo, em silêncio, sem maiores reflexões.
Uma criança encontrou-me no olhar, enquanto seguia seu caminho, vestes simples, por breve instante a conexão.
Ou quase.
Poderia até me importar, me comover. 
Deveria.
Quase até consegui, nem sei.
Até tentei, por vezes, registrar, escrever alguma coisa, tirar de mim algum sentir, mas não.
Só a angústia que me entorpece a mente, me anula o peito, paralisa a alma.
Nada.





sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Um novo livro


Que maravilha ter um novo livro em mãos.
Garantia de aventuras, novos ares, novas histórias, surpresas.
A cada capítulo, a cada página, a cada palavra, novas oportunidades.
Renovação. Aprendizado. Aprimoração.
As páginas que ficaram pra trás, que fiquem para trás. 
Mas nada me impede de consultá-las vez em quando, uma forma de me preparar melhor para as páginas que virão.
Até para desfrutá-las melhor.
Um novo livro, um novo caminho para contar uma história diferente.
Na eterna busca de me auto melhorar, sempre.
Sem pressa, sem pressão, mas sempre.
Ah, que cheirinho de livro novo...







domingo, 20 de dezembro de 2015

Um anjo


Eu caminhava em direção à padaria, domingo bem cedo, absorto, distraído. Próximo à entrada, na calçada, vi um rapaz dormindo. Daqueles moradores de rua que ficam pelas esquinas, que dormem por aí, debaixo das marquises, ao tempo, ao frio. Tive pena dele. Decidi comprar alguma coisa para o rapaz, café, pão, e trazer para ele comer naquela manhã, coitado. Fui na padaria, comprei o que precisava comprar, e ao começar a caminhada de volta, na mesma calçada, vi novamente o rapaz, ainda dormindo. Só neste momento lembrei do compromisso interno, que assumi e não cumpri, pois quando fui na padaria não comprei nada para ele. Envergonhei-me por meu esquecimento egoísta. Mas ao chegar mais perto do rapaz vi que, em cima da sua coberta, havia um embrulho, algo que não estava quando passei por ali minutos atrás. O pacote continha um sanduíche e um copo de suco, fresquinhos, em uma bandejinha de isopor, envoltos em plástico transparente, cuidadosamente preparados e embalados. Quando ele acordasse já teria seu café da manhã. Olhei para um lado, olhei para o outro, não vi mais ninguém. Silenciosa quietude preenchia o ambiente. Árvores à brisa da manhã, trinados de passarinhos ao longe, sons do céu. Abri um sorriso. Que bom que, antes de mim, alguém lembrou do rapaz. Que bom que, antes de mim, por ali passou um anjo.




sábado, 31 de outubro de 2015

Desperdício


Foto: Waldir C. Marinho

Do táxi que me levava ao aeroporto após dias de trabalho em outro estado, ansioso pela volta para casa, sexta-feira, final da tarde, enquanto aguardava o semáforo esverdear, olhei para o lado e as vi.

Duas mulheres sentadas à mesa de um bar em uma das esquinas do centro do Rio, acompanhadas de suas respectivas garrafas de cerveja.

Bebiam e riam.

Desperdício.

Há ocasiões em que o mundo, sei lá, me parece às avessas. Eu não bebo álcool e vivo um estranho fato em minha vida. Sofro uma espécie de, digamos, preconceito - será isso? - por não beber. Algumas pessoas me olham como se eu fosse um tipo de cara esquisito que não bebe álcool.

Perguntam: "Como assim você não bebe?"
Eu respondo: Não bebo, só isso.
(Mais uma vez este assunto...)

"Você é evangélico?"
Não, não sou evangélico.
(Seria uma honra ser evangélico, mas não sou)

"Mas então porque não bebe?"
Não bebo por uma convicção pessoal, não tem nada a ver com religião.
(É mais uma questão de bom senso e caráter)

"Ah mas beber é tão bom, bebe um pouquinho"
(Algumas pessoas já até tentaram me empurrar um gole goela abaixo, acreditem)

A quem será que eu poderia processar por este tipo de bullying? Querem me fazer pensar que eu sou errado por não beber álcool. Querem me fazer pensar isso, que sou errado, por ser correto. Há quem prefira mais passar o tempo em bares nas esquinas do que em suas próprias casas. Eu não, eu prefiro minha casa, meu lar, com minha família, é onde fico bem, onde me sinto em paz. Detesto ir a um bar, a qualquer bar, tenho ojeriza a isto.

Uma vez me sugeriram que eu devo ter algum tipo de trauma de infância, algo assim, para eu ter esta conduta. Acredite, um trauma. Esta pessoa que me disse isso, portanto, entende que a única explicação para fazer alguém não beber álcool, como eu não bebo, seria esse alguém ter passado por um fato marcante que o tenha traumatizado. Deus meu, porque será que é tão difícil, para quem bebe, compreender que há pessoas que não bebem, e que eu posso ter minha opinião de que beber é errado?

Enquanto o semáforo não esverdeava as mulheres continuavam a beber, e estes pensamentos povoavam minha mente.

Desperdício.

Desperdício de que? Eu explico.

Desperdício de tempo.
Estas mulheres podiam estar fazendo outra coisa mais produtiva. Certamente não estavam tendo uma conversa lá muito construtiva, normalmente em bares somente se conversa sobre futilidades, e mesmo quando o assunto é mais sério o álcool acaba por banalizar e confundir tudo.

Desperdício mental.
Elas podiam estar utilizando suas massas cinzentas de outra maneira. De forma mais criativa.

Desperdício de valor.
Acho que pessoas que bebem se desvalorizam. Ao gastar a vida nesta prática sem sentido, isso desvaloriza a pessoa. A bebida vulgariza o homem e a mulher. Acho horrível. Pra mim foi o que aquela cena me transmitiu, mulheres se desvalorizando, ao ficarem assim expostas, na esquina, bebendo daquele jeito.

Desperdício de neurônios.

Desperdício de saúde.

Desperdício de corpo físico.

Desperdício de alma.

Desperdício de vida.

Desperdício, desperdício, desperdício.

Deus nos concedeu nossas vidas certamente para fazermos algo mais importante do que este tipo de entorpecimento mental, moral, causado pelo álcool.

Entendeu?
Não entendeu ainda?
Não entendeu nada?

Ah, sai prá lá, bebum, tenho mais o que fazer.






P.S: Aqui vale uma explicação. Este texto é enfático, creio, especialmente na frase final, e isto é proposital, para demonstrar minha indignação. Mas é algo calculado, não quero mal aos que bebem, conheço vários e me entendo muito bem com estas pessoas. Vejam, o que me incomoda mais é a conduta na bebida de forma exagerada, mas claro há pessoas que bebem de forma contida, socialmente aceitável. Há aqueles que brindam, há os que tem o costume de tomar um ou dois cálices de vinho para acompanhar refeições, não vejo problemas, em geral, na bebida considerada social. O que me incomoda é o sujeito mudar, ter suas percepções e opiniões e palavras e conduta alteradas, influenciado pelo álcool, e, pensando bem, isto é muito relativo, varia de caso a caso. Conheço uma pessoa que após duas latas de cerveja já começa a ficar insuportável, e conheço outra que pode beber bastante que não muda, ao menos aparentemente. E, para aqueles que me conhecem pessoalmente e já me viram beber alguma vez, saibam que nunca bebi muito, sempre fui avesso à cerveja, chopp, nunca cultivei este hábito, mas bebia vez em quando principalmente em festas, mas pouca coisa, isso há anos atrás. Atualmente não bebo nada, há uns cinco anos que não bebo nem um copo de bebida alcoólica, este texto é fruto deste momento portanto.
Mas, saibam, nas vezes em que eu bebi, há muitos anos, mesmo que pouco, eu estava errado, é o que creio agora. 

E espero nunca mais voltar a beber, nem socialmente.
Minha busca é pela consciência, não o contrário.





sábado, 26 de setembro de 2015

Ao poeta


Foto: Waldir C. Marinho

há muito que não te via
saudoso do caro irmão
mas nem bem amanhecia 
alcançou meu coração

reencontro repentino
as notas, letras, o nó 
voltou-me ao peito o menino
a lágrima alçou o pó

desde moço que aprendi
com meu pai gostar-te assim
só que nunca percebi
que tanto gostas de mim

ah poeta que alegria
receber de ti tal flor
perfumar-me na poesia
com que me doas amor



P.s. Poeta, há tanto que te conheço, apresentado por meu pai quando criança. Já muito te ouvi, e achava que não mais me surpreenderia com algum presente teu, enganei-me. Ao pegar emprestado o carro de meu pai, cedo pela manhã, deparei-me num CD com uma de suas ternuras, inédita pra mim. Emocionei-me uma vez mais, e me veio em retorno esta poesia, um singelo agradecimento, que dedico a ti.




segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Num táxi em Teresina


Foto: Waldir C. Marinho

Ele devia ter uns 75 anos ou mais. Creio que bem mais que isso, ao menos era o que me demonstrava sua aparência. Marcas profundas no rosto. Pele maltratada pela vida dura.

Quem conhece a capital do Piauí sabe que do centro da cidade ao aeroporto são apenas uns dez minutos. Em horário de pico uns quinze. Foi este o tempo da conversa entre eu e o taxista.

Ele ouvia música local, eu comentei a respeito, fiquei sabendo que era um cantor evangélico. Esta foi a deixa para ele começar a falar de sua vida, aquele CD havia sido presente de uma ex namorada, foi ela quem o levou pela primeira vez a uma igreja, já com mais de 60 anos de idade. Falava com carinho da ex mulher, que havia sido uma pessoa importante na sua recuperação. Recuperação? Calado, continuei ouvindo seu relato.

Ao levá-lo para a igreja a mulher mudou sua vida. O relacionamento do casal findou, mas o dele com a igreja permaneceu. Deixou para trás um monte de coisa errada que fazia, dizia ele, agora era outra pessoa. Não contou detalhes das coisas erradas que fez, nem eu perguntei, ficaram em minha imaginação.

Tive grande simpatia por aquele Senhor que, de forma sentida e franca, me expôs detalhes de sua vida naqueles dez ou quinze minutos. Bonita a história daquele taxista e sua relação com a igreja. Tenho ciência do belo trabalho que muitas igrejas evangélicas, e outras, fazem pela recuperação de pessoas como ele pelo Brasil afora.

Lembrei de alguns comentários que já li, difamatórios, principalmente em redes sociais, criticando pastores e fiéis evangélicos. E outras religiões também. Não quero entrar no mérito do que motiva tantas críticas e, claro, respeito o direito de opinião de cada um. Mas quaisquer motivos que possam existir para tais críticas a meu ver perdem totalmente a relevância diante de algo tão marcante, bonito, grandioso, como a recuperação da vida daquele senhor, que conheci anos atrás, num táxi em Teresina.



quarta-feira, 29 de julho de 2015

Bem-vindo


Foto: Waldir C. Marinho

olhas para mim
e me pergunto o que vês
amor, reencontro, porquês?
tão frágil assim
neste teu, meu, renascer
seja bem-vindo meu bebê






sexta-feira, 19 de junho de 2015

Virou amizade


Foto: Waldir C. Marinho

Notei o casal de idosos à minha frente.
Ele devia ter quase noventa anos, ela uns oitenta.
Atitude carinhosa entre os dois, delicada.
Ele trouxe um café para a esposa, e enquanto ela bebia ele ficou acarinhando os cabelos da mulher com as mãos.
Palavras suaves, olhares, sorrisos.
Lindos.
Muito tocante ver pessoas assim que depois de tantos anos ainda demonstram tamanho carinho e respeito. 
Pareciam ser, sobretudo, grandes amigos.
Fiquei meditando sobre as vezes em que ouvi, como justificativa para processos de separação conjugal, a frase recorrente: "Acabou o amor, virou amizade".
Observei mais uma vez o casal de idosos e a grande cumplicidade entre os dois.
Virou amizade?
Talvez aí é que tenha começado o amor.