quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Nova chance


Foto: Melissa Marinho

Continuo a caminhar, sem direção, sem conseguir compreender o que está à minha volta. Escuridão completa, sólida. Onde estou? Tento lembrar de como cheguei até aquele local, em meio a pensamentos desconexos. Consigo visualizar alguns contornos pálidos, acredito, mas que lugar seria esse? Estou sozinho e minha cabeça me atordoa, prossigo tentando caminhar no escuro, tateando às cegas, com receio de esbarrar em alguma coisa. Confusão em minha mente, cenas do passado me perseguem, nem sei bem diferenciar o que penso daquilo que vejo, se é que vejo realmente alguma coisa. Ouço algo? Sim, talvez, se assemelham a... sussurros. Posso estar imaginando coisas. Sigo, trôpego, em meio ao intenso negrume. De repente uma sensação diferente, alguém está ali, no escuro, a me espreitar. Quem é você? Tenho medo. Seja lá o que for, se aproxima. Tudo é escuridão. Aquela presença me provoca arrepios, me faz mal. Acelero meus passos, logo começo a correr. Não sei bem se chego a algum lugar de fato, mas continuo, corro e corro. Depois de algum tempo creio ter conseguido me desvencilhar daquela presença incômoda, paro de correr tentando perceber algum sinal do meu perseguidor. Terei eu sido realmente perseguido? Talvez não. De repente, a um palmo do meu ouvido, um grito estridente, arrepiante, ensurdecedor. Meu coração parece saltar do peito, nem me atrevo a olhar para o lado, fujo novamente como quem foge da morte. Tento chamar alguém, ninguém ouve. Socorro, socorro! Nem sei se grito ou é minha mente que me soa, me agride. Estarei enlouquecendo? Desespero, medo, perco a noção do tempo, pareço estar há horas nesta situação, ou seriam dias, meses? Minhas memórias me machucam, atos praticados, erros cometidos. Ouço ruídos, vozes, que me deixam apavorado. O que será isso? Medo, muito medo. Porque não consigo esquecer? Porque essas coisas me assaltam a mente? Sinto frio, dor, culpa. Quem são vocês? Quem está aí? Estão me acusando, serão as vozes ou a minha consciência? Ou é a mesma coisa? Minha cabeça parece a ponto de explodir em dor aguda. Tento fazer uma oração, é difícil, não consigo concatenar idéias, apenas confusão e angústia. Entre soluços, me ajoelho abruptamente, Jesus amado, perdão, perdão, perdão!

Algo mudou. Parece ter passado algum tempo. Silêncio. Imagens, sensações distantes, vagas, desaparecem rápido, por completo enfim. Teria eu sonhado? Não lembro. Um sentimento de leveza me inunda o peito. Respiro profundamente o ar puro que me preenche os pulmões, e a alma. Ao longe, passarinhos. Equilíbrio, paz. Com os olhos ainda fechados percebo uma mudança no ambiente, certa luminosidade toca meu rosto. Sinto a maciez do lençol a me afagar o corpo, confortável sensação. Abro meus olhos, aos poucos, para a suave luz nascente que me atinge, vinda da janela entreaberta do meu quarto. Independentemente de meus atos, nova chance me fora concedida. Uma lágrima solitária escorre, vagarosa, a refletir os primeiros raios de um novo dia.





domingo, 23 de dezembro de 2012

Reforma


Foto: Tatiana Girotto


naquele bairro triste e sombrio
somem estrelas, cresce o vazio
não há consolo, faltam canções
angústia gélida nos corações

naquela rua tão fria e escura
turvam olhares em amargura
mas já percebe-se aflorar
tênue desejo de melhorar

naquela casa vê-se a mudança
suave brisa de esperança
soam palavras mais caridosas
sorrisos tímidos, já brotam rosas

naquela alma antes em dor
agora há calma, vibra o amor
reforma íntima transborda em luz
renasce em vida, venceu Jesus






sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Amarras


e eis que chega o momento
liberte-se desta prisão
externe o que tens por dentro
desamarre o coração



*Inspirado no poema ´Indiferença´ do poeta baiano A J Cardiais http://ajcardiais.blogspot.com.br/2012/07/indiferenca.html



quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Brainstorm


Foto: Mario Marinho

Está com saudade? Vá encontrar. Se estiver longe, vá assim mesmo. Se não puder encontrar de jeito algum, telefone, envie torpedo, converse no msn, e-mail, use o Orkut, o Facebook. Não fique nutrindo a falta, um pouco de saudade põe tempero na vida, ok, mas saudade crônica faz adoecer. Vá atrás! Está com vergonha de procurar esta pessoa? Ah, por favor, deixe de ser criança. Esta pessoa parece não se importar com você, por isso não quer procurá-la? Vá atrás assim mesmo, talvez não seja bem o que você pensa, pode ser que somente ela esteja também receosa de lhe procurar. Resolva! Se não dá para encontrar ou contactar de forma alguma, então pense nela, lembre dela com carinho. Ah, mas esta pessoa não está mais entre nós? Nossa, aí você me pegou. Difícil... Bem, ainda assim pense nela, lembre desta pessoa em seus melhores momentos, ela estará assim mais próxima, em seu peito. Valorize a importantíssima passagem desta pessoa em sua vida lembrando dela em instantes de alegria, de companheirismo, de amizade, de amor. E imagine que há uma chance de ser verdade o que muitos acreditam, que depois desta vida nós continuamos. Acredite que esta pessoa de alguma forma continua, e que você, no tempo certo, a encontrará novamente. Tente acreditar nisso também, eu acredito. Está triste? Dá para melhorar. Dá sim, sei disso, já aconteceu muito comigo, com todos, nesses momentos por vezes basta pensar em outras coisas, em coisas melhores que essas que agora povoam seus pensamentos. Com certeza há algo em sua vida pelo qual vale a pena sorrir. Mude os pensamentos, valorize o que tem de melhor em sua vida. Tem cometido erros? Ah, vou te confessar, mas não conte pra ninguém... eu também. Rs. Você é um ser humano, erros acontecem, e tenho certeza que também lhe tem ocorrido acertos, não é mesmo? Daqui por diante, tente errar menos. Combinado? Externe aquilo que sente. Se não consegue falar, escreva, ou nem escreva nada, vai lá e abraça. Ou xinga! Rs. Só não guarde o que sente apenas para você. Você ama? Diga “eu te amo”. Ah, mas o sentimento não é bem esse? Rs, externe também, com bom senso, claro, mas resolva a situação! Está com dificuldades com alguém, deixa de frescura, para de ficar lendo este blog aí sozinho e vai procurar a pessoa para resolver! Vai dizer que ama, que não ama, chega de ficar parado, pensando, ruminando, estudando o que poderia ter sido, vai lá e vive!



P.S: Escrevi este texto há mais de um ano atrás, realmente como num brainstorm fui colocando no 'papel' de uma vez aquilo que me vinha na cabeça, uma idéia puxando a outra. No entanto, percebi depois, esta expressão "põe tempero na vida" veio de algo que eu li de uma amiga no antigo Orkut. Na ocasião ela se referia a seus amigos, no meu caso me referi à saudade. Esta amiga é a Ana Paula Rodrigues, que estudou comigo no GPI Madureira ( Rio ), eu não podia deixar de dar o devido crédito. A frase da Ana Paula ficou em mim e acabou saindo naturalmente no texto. Ao perceber isso quase a tirei da versão final, mas se fizesse isso o título perderia um pouco o sentido, então preferi deixar e citar de onde ela veio. Nem sei se a expressão foi de fato criada pela Ana, mas fica aí a minha fonte. Abraços!




sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Goiabeira

Foto: Waldir C. Marinho


Eu subia na goiabeira muito rápido, conhecia os galhos certos onde me apoiar, em quais pôr os pés, as mãos, e logo chegava lá em cima, em segundos ia do chão ao céu. A árvore ficava no quintal dos fundos da casa de meus pais, onde vivi minha infância. Bem no alto havia um galho em curva, que funcionava certinho como uma espécie de cadeira, e eu, ainda bem pequenino, adorava ficar lá em cima ouvindo os sons, sentindo os cheiros, sensações, sentimentos, daquele meu mundo infantil, há mais de 30 anos atrás. Aquele local lá no alto da goiabeira era o meu cantinho particular. Eu adorava as goiabas "de vez", nem verdes nem maduras, hum, que delícia. A goiabeira era de goiaba vermelha, a mais suculenta e saborosa, eu comia lá em cima mesmo, sozinho, pensando na vida. Dos galhos da goiabeira eu conseguia alcançar o teto da garagem, e também o telhado da casa de minha avó. A árvore ficava entre a garagem e a casa, e os galhos mais altos ultrapassavam e cresciam por sobre as duas construções. Minha vó Maria morava há anos nesta sua casinha, atrás da casa de meus pais. Eu subia na goiabeira, pulava no teto da garagem, voltava para árvore novamente, de lá ia para o telhado da casa de minha avó, ia e voltava diversas vezes, adorava fazer isso. Do telhado da casa eu conseguia até subir em outra árvore, uma mangueira que ficava do outro lado, mas eu preferia a goiabeira, pois os galhos eram mais confiáveis, e lá eu tinha o meu lugar especial onde ficar. E também eu gostava mais de goiaba do que de manga, aliás até hoje eu prefiro as goiabas. Eu ficava lá em cima, no meu cantinho, em meio a meus pensamentos, preocupações e alegrias de criança. Minha avó, muito religiosa, costumava sentar no degrau da porta de entrada da casa dela para cantar as músicas favoritas da sua igreja. Eu e meus irmãos tivemos em nossa infância esta espécie de “trilha sonora”, minha vó e os cânticos de sua igreja, ela gostava muito de cantar e ficava lá na porta de sua casinha cantando por muito tempo, quase todos os dias. Por vezes ela me via lá em cima, no alto da goiabeira, e dizia: meu filho, desce daí, toma cuidado! Bons tempos aqueles.
Meus pais ainda moram no mesmo local, mas a goiabeira não está mais lá, há anos secou, morreu, e o tronco foi arrancado. A casinha da minha avó continua lá, hoje vazia.

Lembro disso tudo agora e é difícil descrever a sensação que me toma conta. Queria tudo de volta. Queria subir de novo naquela goiabeira apoiada na casinha da minha avó, agora mesmo, ficar um tempo naquele lugar que só eu conhecia e comer uma goiaba nem verde nem madura, “de vez”. Queria ouvir minha avó novamente cantando as músicas da igreja, sentada junto à porta da casinha dela. Nem que fosse por uns poucos minutos, queria muito ouvir minha vó Maria cantar novamente. A vida passa e a gente não se dá conta da importância destes momentos quando os vivemos, apenas depois, anos depois. Queria poder voltar no tempo.

Ah, acabei de me dar conta, voltei agora mesmo. Voltei no tempo ao escrever estas linhas, em meio a lágrimas, através desta inexplicável magia, a magia da saudade.




segunda-feira, 23 de julho de 2012

Procura

Foto: Waldir C. Marinho
sensível, aguarda por anos 
perscruta em cada momento 
na espera de ver noutro rosto 
resposta a tanto sentimento 

por tempos buscando à distância 
vislumbre do pleno instante 
sua vida restrita a tal ânsia 
parada sem seguir adiante 

aposta em reciprocidade 
tão vã utopia que almeja 
em já adiantada idade 
deixou de buscar em si mesma




quarta-feira, 13 de junho de 2012

No outro lado da rua


Foto: Waldir C. Marinho


Numa esquina em Perdizes, bairro nobre de São Paulo. O pão na chapa do jeito que eu gosto, "sem apertar", apenas com a manteiga derretida. O café expresso com leite em xícara média, nem forte nem fraco, no ponto, na temperatura certa, com adoçante em pó. Hum, delícia. Tomo meu café fora de hora, mas tudo bem, num domingo isso até é comum. A padaria repleta, algumas pessoas já almoçam, um entra e sai de gente, na parte externa há uma fila para comprar frango assado. Saboreio meu café enquanto leio o livro da vez, ótima leitura, e ouço algumas de minhas músicas preferidas com o fone conectado ao celular. Levanto os olhos do livro e observo as pessoas, o ambiente, limpo, organizado, harmonioso. Volto ao livro até terminar meu café, confortável, absorto. Junto ao caixa cedo a vez à uma senhora que leva um poodle no colo, e recebo um sorriso de agradecimento. Pago a despesa com uma nota de cinquenta, estou sem trocado. Saio da padaria na rua arborizada, agradável. Carros passam adiante, pessoas transitam pelas calçadas. Brisa fresca de final de manhã, domingo de sol, tranquilidade, paz. Um dia especial, feliz.

Agora as vejo, um grupo de crianças, maltrapilhas, na calçada oposta à padaria, alguns metros mais a frente. Duas meninas e um menino sentados junto à guia da calçada. Parecem ser irmãos. A menina mais velha, de no máximo uns doze anos, tem um recipiente plástico estilo tupperware nas mãos. Em dado momento ela abre o recipiente, que está cheio do que me parecem ser restos de comida, algum tipo de massa talvez. Percebo então o propósito de estarem ali, sentaram naquele local para almoçar. A menina retira a tampa do recipiente plástico, e então começa a usar a própria tampa do pote com se fosse um talher. Vai recolhendo porções da comida do pote com um dos cantos da tampa e serve às outras crianças, que abocanham a comida servida naquele talher improvisado. E assim a menina mais velha vai fazendo, pega uma porção e estica o braço para servir à uma menininha menorzinha, de uns oito anos, depois faz o mesmo com o menininho de uns dez anos, e em algumas vezes ela serve a si mesma. E faz isso até que acaba a comida do pote.

Eu olho a cena um tanto paralisado. Vejo um carro bonito estacionado em frente, um Mitsubishi. Diversos condomínios de luxo à volta. Na padaria pessoas continuam a saborear seus almoços, e o cheiro de frango assado é fortíssimo, vindo da assadeira localizada na entrada do estabelecimento. E neste mesmo contexto, a metros de distância, aquelas crianças, sentadas na guia da calçada, como se fosse algo normal, comum, aceitável. Não, isso não é algo aceitável. Fico imaginando como deve ser difícil para aquelas crianças comer restos de comida sentindo aquele cheiro forte de frango assado no ar. Fico imaginando como deve ser difícil para elas compreenderem e aceitarem a situação em que estão.

Tenho um ímpeto de comprar um daqueles frangos assados e levar para as crianças mas, não sei bem por qual motivo, protelo, espero mais um pouco. E mais um pouco. A vontade de ajudar não é maior que meu comodismo, minha inação, minha paralisia. Meu egoísmo.

Antes de eu fazer qualquer coisa as crianças levantam e vão embora.

E eu fico em meio a meus pensamentos, me perguntando até quando. Até quando vamos ter tamanha falta de vergonha na cara e continuar a desfrutar impunemente de nossos carros de luxo, de nossos cafés, almoços, jantares, festas, roupas caras, de nossos condomínios, de nossos iphones, ipads, de nossas quinquilharias inúteis, efêmeras e fúteis, enquanto há crianças sentadas na beira da calçada, usando tampas de plástico como talheres, se alimentando de restos de comida, logo ali, a poucos metros, no outro lado da rua.




P.S. Não se trata de ficção, e ninguém me contou isso, eu mesmo vi. Cheguei a tirar uma foto com meu celular, esta que ilustra o texto.








segunda-feira, 14 de maio de 2012

Descobertas


Foto: Waldir C. Marinho


Os acontecimentos que aqui descrevo me retornam à memória de forma distante, uns 30 anos se passaram, nem lembro das pessoas, mas dos fatos, sensações, sentimentos. Tomei liberdade em preencher algumas lacunas portanto, mas que não reduzem a importância da essência aqui exposta.

A molecada veloz, nem sabia bem pra onde iam, só sei dizer que eu não iria perder de jeito algum fosse o que fosse, pensei enquanto já voava na mesma direção. "Pegaram um ladrão", diziam, "lá na esquina", apontavam, corriam, vibravam.
Ao chegar pude ver que, além das pessoas que começavam a aglomerar, havia um policial com uma criança a seus pés. Um menino de pele alva, cabelos lisos, e suas pálpebras cerradas apenas me permitiam supor seus olhos tristonhos. Cabisbaixa, quieta, de uns aparentes nove anos, aquela criança era o tal ladrão.
Percebi que havia um outro policial numa casa próxima procurando alguma coisa, depois soube que buscava outro ladrão que talvez estivesse escondido por ali. Logo localizou o outro bandido, mais uma criança. Este segundo menino, um ou dois anos mais velho que o primeiro, era negro.
A história em torno do tal crime que eles haviam supostamente cometido foi contada por alguns populares, roubaram ou tentaram roubar uma senhora num ônibus, fugiam correndo pela rua ao ser interceptados pelos dois policiais. Depois pude notar no chão, próximo a um dos policiais, a arma do crime. Algo que tentava imitar um pequenino revólver, falso, parecia feito de algum tipo de resina de cor escura.
Passados alguns momentos, bem ali na frente de todos, os policiais começaram a bater nos ladrões. Nas crianças. De forma intensa, como se estivessem lidando com adultos. Não havia um motivo claro para bater, não procuravam obter alguma informação, como por vezes vemos nos filmes, apenas batiam. Pareciam estar aguardando alguém chegar e, enquanto aguardavam, batiam.
Naqueles instantes eu notei um fato perturbador, quase que só o menino negro apanhava. Não que o menino branco não tenha levado algum safanão, levou sim. Mas nos minutos que ali fiquei creio que só uma vez o menino branco levou uns tapas. O menino negro apanhou o tempo todo.
A já grande aglomeração de curiosos no entorno vibrava.
Uns dez minutos nesta situação e chegou enfim o reforço, um carro da polícia. Os policiais que pegaram os meninos estavam a pé, deviam estar aguardando por este carro para levar os ladrões para alguma delegacia, algo assim. Alguns policiais saíram do carro.
Foi nesta hora que aconteceu o fato que mais me marcou.
Um dos policiais que acabara de chegar chamava a atenção por ser muito alto, grande, o cara era enorme. E ele era negro. Parecia um daqueles jogadores americanos de basquete. Muito bem, ao sair do carro este policial grandão, negro, se aproximou do grupo e, sem dizer uma palavra, se dirigiu a um dos meninos e, abrindo os braços, fechou-os aplicando um golpe com as duas mãos abertas nos dois lados da cabeça, nos ouvidos do menino escolhido. O golpe foi com tanta força que fez um barulho muito alto, fazendo a criança gritar e desabar no chão de dor. Ao ver o menino caído no chão o tal policial negro enorme começou a chutá-lo, sem dó e sem medidas, chutou e chutou o menino, que gritava e tentava se proteger da forma que podia com as mãos. O policial continuou batendo no menino por alguns minutos. Creio que só parou por estar já meio cansado. E o menino que o policial escolhera 'ao acaso' para bater havia sido o menino negro. De fato o policial grandão nem tocou no outro menino, o branco.
E a torcida no entorno, cada vez maior, continuava a vibrar, como que acreditando que algum tipo de justiça estava sendo feita.
Creio que tudo terminou com os policiais colocando os meninos no carro e indo embora. Aquela situação me incomodou muito, nem sei bem porque fiquei aquele tempo todo vendo aquilo. Mas foi um aprendizado. Naquele dia eu, com talvez uns 10 anos de idade, nem lembro bem, cheguei a algumas conclusões.
O racismo estava presente em nossa sociedade, nu, exposto, sem qualquer pudor ou censura. E o racismo não tinha cor. E naquela cena a atitude racista me pareceu ter sido praticada até de forma um tanto, se assim posso dizer, inconsciente, pelos agressores. Não escolheram conscientemente o menino negro para bater, simplesmente assim ocorreu, o que é algo ainda mais inquietante.
A chamada 'justiça' pode adquirir características estranhas. Ali não era motivada pela justiça que a população vibrava a cada pancada que os policiais davam nos meninos. E os policiais não batiam em busca da justiça. Os policiais batiam apenas porque eram superiores, em força física, e pelas circunstâncias, afinal eles eram a polícia e os meninos os bandidos. O real motivo talvez fosse apenas esse, batiam porque eram mais fortes, se sentiam superiores, e assim aproveitavam aquela situação para descarregar nos meninos suas próprias mágoas, frustrações, dissabores. E a população vibrava pelo mesmo motivo.
A violência, naqueles momentos, foi algo que iniciou e cresceu, alcançando a muitos. Começou no assalto, continuou através da polícia, repercutiu na população. É preciso tomar cuidado, ser vigilante para não se deixar influenciar por este tipo de coisa. A violência, ou o ódio, pode ser algo contagioso, naquela ocasião foi o que me pareceu ter ocorrido.
Aquelas cenas contribuíram para formar em mim uma completa aversão à violência. Ficou muito claro para mim naqueles momentos que a violência é um erro. Os ladrões, os meninos, agiram errado, foram covardes, sim, com a senhora no ônibus, mas a seguir foram tratados também com covardia, a meu ver muito maior, pelos policiais.
No momento em que alguém aproveita uma situação de superioridade, qualquer suposta superioridade, para agir com violência contra outra pessoa numa situação inferior, mesmo que o agredido tenha cometido algum erro, por mais grave que seja este erro, independente dos motivos, neste momento esta pessoa que pratica a violência está errada.
Independente de quem agride ou de quem é agredido, independente de supostos crimes praticados por uma ou outra parte, a violência é um completo, absurdo, absoluto, equívoco.



sábado, 21 de abril de 2012

Onda


Foto: Waldir C. Marinho

onda que vai, recua, sai 
afasta, esfria, em calmaria 
mas logo torna, renasce, amorna 
não se detém, aquece, vem 
deságua, eclode, à margem explode 
a me lançar, muito além-mar




(Inspirado no poema Mares Lejanos de Silvia Pinheiro



quarta-feira, 4 de abril de 2012

Meu lugar


Foto: Waldir C. Marinho

Solitário, ocupo uma cadeira no fundo do amplo salão.
O local onde estou está escuro, sombrio.
Aguardo.
Tenho uma sensação de que alguém me observa.
Levanto o olhar, cauteloso, para a parede oposta, distante, lá na frente.
Lá eu vejo uma luminosidade celestial, contrastando com o outro extremo, aqui onde me encontro.
Na parede iluminada um quadro com uma linda imagem.
Jesus.
Ele parece me observar.
Um olhar de compreensão.
Parece esperar, de mim, alguma coisa.
Que eu tome alguma atitude.
Que eu me aproxime mais.
Com paciência, me aguarda.
Agora percebo, há algumas pessoas, não muitas, sentadas, próximas da outra parede, próximas da imagem de Jesus.
Distantes de onde estou.
Sinto um certo incômodo, por vê-las em meio à luz, enquanto eu estou na escuridão.
Parece-me uma grande distância, um longo caminho até lá.
Abaixo a cabeça, fecho os olhos, sem saber como proceder.
Até tenho uma certa idéia de como agir, acredito, não muito clara.
Mas, cabisbaixo, permaneço imóvel.
De repente me surge um pensamento: "Tente dar o primeiro passo".
Levanto a cabeça novamente, vejo a luminosidade lá na frente, que chega a ofuscar.
Observo a linda imagem de Jesus.
Ele parece quase me sorrir.
Lágrimas escorrem pelo meu rosto.
Não sei bem quando será o meu momento.
Mas tenho uma certeza.
Lá é o meu lugar.