segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Num táxi em Teresina


Foto: Waldir C. Marinho

Ele devia ter uns 75 anos ou mais. Creio que bem mais que isso, ao menos era o que me demonstrava sua aparência. Marcas profundas no rosto. Pele maltratada pela vida dura.

Quem conhece a capital do Piauí sabe que do centro da cidade ao aeroporto são apenas uns dez minutos. Em horário de pico uns quinze. Foi este o tempo da conversa entre eu e o taxista.

Ele ouvia música local, eu comentei a respeito, fiquei sabendo que era um cantor evangélico. Esta foi a deixa para ele começar a falar de sua vida, aquele CD havia sido presente de uma ex namorada, foi ela quem o levou pela primeira vez a uma igreja, já com mais de 60 anos de idade. Falava com carinho da ex mulher, que havia sido uma pessoa importante na sua recuperação. Recuperação? Calado, continuei ouvindo seu relato.

Ao levá-lo para a igreja a mulher mudou sua vida. O relacionamento do casal findou, mas o dele com a igreja permaneceu. Deixou para trás um monte de coisa errada que fazia, dizia ele, agora era outra pessoa. Não contou detalhes das coisas erradas que fez, nem eu perguntei, ficaram em minha imaginação.

Tive grande simpatia por aquele Senhor que, de forma sentida e franca, me expôs detalhes de sua vida naqueles dez ou quinze minutos. Bonita a história daquele taxista e sua relação com a igreja. Tenho ciência do belo trabalho que muitas igrejas evangélicas, e outras, fazem pela recuperação de pessoas como ele pelo Brasil afora.

Lembrei de alguns comentários que já li, difamatórios, principalmente em redes sociais, criticando pastores e fiéis evangélicos. E outras religiões também. Não quero entrar no mérito do que motiva tantas críticas e, claro, respeito o direito de opinião de cada um. Mas quaisquer motivos que possam existir para tais críticas a meu ver perdem totalmente a relevância diante de algo tão marcante, bonito, grandioso, como a recuperação da vida daquele senhor, que conheci anos atrás, num táxi em Teresina.



quarta-feira, 29 de julho de 2015

Bem-vindo


Foto: Waldir C. Marinho

olhas para mim
e me pergunto o que vês
amor, reencontro, porquês?
tão frágil assim
neste teu, meu, renascer
seja bem-vindo meu bebê






sexta-feira, 19 de junho de 2015

Virou amizade


Foto: Waldir C. Marinho

Notei o casal de idosos à minha frente.
Ele devia ter quase noventa anos, ela uns oitenta.
Atitude carinhosa entre os dois, delicada.
Ele trouxe um café para a esposa, e enquanto ela bebia ele ficou acarinhando os cabelos da mulher com as mãos.
Palavras suaves, olhares, sorrisos.
Lindos.
Muito tocante ver pessoas assim que depois de tantos anos ainda demonstram tamanho carinho e respeito. 
Pareciam ser, sobretudo, grandes amigos.
Fiquei meditando sobre as vezes em que ouvi, como justificativa para processos de separação conjugal, a frase recorrente: "Acabou o amor, virou amizade".
Observei mais uma vez o casal de idosos e a grande cumplicidade entre os dois.
Virou amizade?
Talvez aí é que tenha começado o amor.




domingo, 10 de maio de 2015

Chamo por ti


Foto: Melissa Marinho

se estou amargurado
solitário
triste
chamo por ti

você me acode
me consola
me acalma
me abraça
me enxuga o pranto

sempre que eu precisar
sei que em ti poderei me apoiar
por mim esperará
me amparará
nunca me deixará sozinho

todas as pessoas
sem exceção 
seja lá como levam suas vidas
dos erros cometidos
dos crimes praticados
grandes ou pequenos
todas as pessoas
nos momentos de aflição
nas horas difíceis
até no momento derradeiro
se rendem e clamam
pedem amparo
socorro

sei que sempre me ajudará
sempre me compreenderá
sempre me perdoará

sei que sempre me amará
incondicionalmente

sempre

só de pensar em sua benção
chego às lágrimas
sinto paz

eu te amo

mãe


sexta-feira, 24 de abril de 2015

A geração KKK



Eu me dirigia à padaria próxima de minha casa imerso em pensamentos sobre um fato social que me tem perturbado ultimamente.
Quem sou eu para julgar alguém, mas é que esta realidade vem me incomodando
 muito.
Bem, é o seguinte, é que tenho visto hoje em dia, como posso dizer, uma espécie de, idiotização, nas comunicações sociais, é isso.
Será que fui muito severo nesta minha opinião?
Vai saber, mas atualmente está demais, demais.
Deixa eu tentar explicar.
Isso ocorre principalmente nas redes sociais, em especial no WhatsApp, mas também no Facebook e em outras.
É um tal de piadinha pra cá, vídeozinho prá lá, fotinha engraçadinha, desenhinho bobinho, como se uma grande parte das pessoas não levasse mais nada a sério.
Creio que isto ocorre bem mais entre os jovens.

Um envia um vídeo, os outros comentam, dão risadinhas, respondem com comentários ainda mais frívolos, enviam outros vídeos, mais risadinhas, e assim vai.
Isso tudo adornado pelo uso sofrível da língua portuguesa.
É "KKK" pra cá, "KKK" pra lá. 
Inutilidades diversas.
Se fizerem uma estatística a respeito, eu me pergunto, qual será o percentual de futilidades que são trocadas, minuto a minuto, nas mensagens do WhatsApp?
Eu me arrisco a dizer que perto de 90% das mensagens postadas são pura bobagem.
Onde estão as ideias, as discussões, onde foram parar as reflexões? 

Cadê as conversas sobre literatura, sobre filosofia, sobre arte, sobre religiosidade? 
Os assuntos edificantes? A consciência moral?
Porque tamanha superficialidade?
Porque?
Entrei na padaria em meio a estas reflexões.
Ao aproximar-me do balcão, uma surpresa. Um rapaz, de uns 20 anos ou menos, sentado com um livro ao lado. Dostoiévski. Será? Um garoto tão jovem lendo este escritor? O livro era "O idiota". Imaginem a cena, totalmente sugestiva para meus pensamentos do momento. Perguntei se era ele quem estava lendo aquele livro, confirmou. "Parabéns" - não me contive. Falei a ele de minhas últimas reflexões, trocamos algumas palavras e nos despedimos.
Nada está perdido, pensei, aquele rapaz se transformou numa espécie de herói, alguém que vai salvar o mundo de tanta idiotice.
Fiquei até um pouco incomodado, afinal eu mesmo nunca li Dostoiévski, rs.
Pois é.
Opa, acabo de ouvir aquele som característico, deixa eu olhar meu celular, recebi uma mensagem no WhatsApp.
Um vídeo, vou clicar play.
Até que é bacaninha este vídeo.
Deste estou gostando.
Bom mesmo.
Está quase chegando no final.
Que engraçado!
KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK



terça-feira, 31 de março de 2015

Ela chorou


Foto: Waldir C. Marinho

Meu Deus. 
As palavras vieram, assim, inesperadas. 
Atingiram-me a alma.
"Quando meu filho foi morar em São Paulo, eu chorei".
"Ninguém viu, mas eu chorei".
De forma doce, como tudo o que ela fala e faz, disse estas palavras, timidamente, tão suavemente, como se acanhada em confessar a sentida emoção.
Já se vão quase 15 anos em que saí do Rio e fui para São Paulo, e minha mãe nunca havia falado nada parecido para mim.
Ah, mãe.
Ah, minha mamãe.
Teria bastado uma frase.
Meu filho, não vá.
Não vá.
Mas eu fui.
E, agora sei, ela chorou.
Eu também.




sábado, 28 de fevereiro de 2015

De todos

Foto: Waldir C. Marinho

há quem veja um Deus exclusivo
eu vejo diferente
este que me tolera
me ajuda
me abençoa até quando não mereço
este que sempre me ouve 
mesmo que eu nem sempre o ouça
este que é infinitamente justo e bom
este Deus é de todos
não de alguns
mas de todos
dos católicos
evangélicos
pentecostais
espíritas
umbandistas
candomblecistas
judeus
budistas
muçulmanos
seja lá qual for o credo
é Deus dos que acreditam
e também dos que se julgam ateus
dos cristãos
e também dos pagãos 
dos moderados
e também dos fundamentalistas
é Deus de todos os povos
raças
vontades
partidos
cores
opções
é Deus das famílias
e também dos moradores de rua
dos justos 
e dos nem tanto
dos homens de bem
e também dos criminosos
não importa quais crimes tenham praticado
este Deus é único
e de todos
povo de Deus
somos todos nós



quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Momentos


Foto: Waldir C. Marinho

poentes encarnados
lua e estrelas
alvoradas de passarinhos

gestos de ternura
música da alma
o descobrir da poesia

o dia em que percebi que posso escrever
e que há quem se sinta tocado 
pelo que meu peito grita

quando venci o egoísmo e ajudei a um irmão
seu doce olhar de gratidão
de brilho inesquecível

nossas conversas íntimas
em prantos
eu e Deus

amor
muito amor
amor demais



quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

O caminho


Foto: Waldir C. Marinho


Há mais de dois mil anos nos foi apresentado o caminho
O único
Amor

O querido apóstolo Paulo nos ofertou verdades tão lindas.

"O amor é paciente, 
é benigno,
não se arde em ciúmes,
não se ufana, 
não se ensoberbece.
O amor não se conduz inconvenientemtente, 
não procura os seus interesses, 
não se exaspera, 
não se ressente do mal.
O amor não se alegra com a injustiça,
mas regozija-se com a verdade.
O amor tudo sofre, 
tudo crê, 
tudo espera, 
tudo suporta."
(Coríntios 1, cap. 13)

Se fui ofendido
Mas se eu amo
Perdôo

Se eu amo nem enxergo a ofensa

Tudo se resolve
Tudo se alcança
Basta amar

Vejo pessoas queridas que não se entendem
Que elas se entendam
Que todos nos entendamos
Irmãos que somos
É o que desejo
Do fundo de minh'alma
Neste dia de Natal




domingo, 23 de novembro de 2014

Na calçada do Hospital das Clínicas


Foto: Waldir C. Marinho

Eu caminhava, devagar, bem cedo, em paz.
Ambiente arborizado, bonito, repleto de pessoas, em grande parte familiares e pacientes do conhecido hospital.
"Ah, porque você não quer namorar com ela?", voz de mulher, sentada num banco debaixo de uma árvore. "Porque sou muito pequeno!", a resposta veio de uma criança, um menino de uns sete anos. Percebi que a sugerida namorada, a menina sobre a qual a mulher se referira brincando, era sua filha, de idade semelhante à do menino. A menininha era especial e observava a cena em sua cadeira de rodas, enquanto o menino brincava, pulava, corria no entorno. Ele era 'normal' segundo os olhos da sociedade. "Só quando eu crescer", o menino acrescentou. Todos sorriram. Fiquei imaginando a luta daquela mãe procurando inserir sua filha num contexto social. Busquei na face da mulher o que escondia seu sorriso, uma nota triste me alçou a alma, imaginei como seria aquela conversa dali a uns dez anos, quando as crianças não forem mais crianças, quando a realidade adulta, com toda sua hipocrisia e crueldade, se impor.
Mais à frente uma outra criança especial, agora um menino, também em uma cadeira de rodas e com sua mãe ao lado. Olhou para mim. Aparente patologia mental lhe trazia um esgar ao rosto. Ao topar com ele, com seu olhar, abri um sorriso. Costumo fazer isso quando vejo pessoas com deficiências ou com doenças graves. Fico imaginando como deve ser difícil, como deve doer no peito, estar na situação destas pessoas que além de suas condições difíceis ainda frequentemente acabam por perceber nos outros olhares de repulsa. Por isso, ao encontrar pessoas assim, tenho este hábito, procuro oferecer de imediato meu sorriso.
Depois vi, em meio a várias pessoas, uma menininha com um fino tubo plástico nas narinas, como aquela menina do livro "A Culpa é das estrelas". Fiquei torcendo que não fosse o mesmo caso, afinal não visualizei o cilindro de oxigênio como aquele que a protagonista do livro carregava pra lá e pra cá. Tomara fosse outro o motivo daquele tubo, pensei. Passei pelo grupo, pela menininha, observando, e aí pude perceber nas mãos da mãe da menina alguma coisa colorida. Era algo envolvido em crochê azul, rosa, amarelo, verde. Pesado. Era o cilindro de oxigênio, multicor, disfarçado na tentativa de humanizá-lo. Talvez fosse o mesmo caso do livro, enfim. Nova nota melancólica vibrou em mim. Ela tinha uns 5 anos.
Caminhar por este lugar me coloca em outra perspectiva.
Em outro prisma de consciência.
Problemas, eu? Que nada.
Quantas pessoas, tantas, precisam de ajuda, de muita ajuda, neste mundo de Deus.
E quem as ajuda? 
A sociedade precisa ter mais compaixão, mais solidariedade, precisa mudar.
O ser humano precisa mudar.
Eu preciso mudar.
Passou por mim um homem caminhando apressado, com uma camisa listrada, falando ao celular. "Então, eu preciso de cinquenta reais", disse ele, enquanto em passadas rápidas seguia adiante. E continuou, "é que minha filha acabou de falecer e está faltando este valor para completar o pagamento do sepultamento".
Desta vez interrompi meus passos.
Observei o homem, em sua camisa listrada, ainda falando ao celular, desaparecer em meio à multidão.
A seguir tive o ímpeto de ir atrás dele, nem sei para fazer o que, para emprestar dinheiro talvez, saí andando apressado. 
Procurei e procurei, chegando próximo a uma esquina movimentada. 
Não mais o encontrei.
Fiquei ali, olhando as pessoas.
Parado.
Calado.
Em profunda reflexão.
Na calçada do Hospital das Clínicas.