quinta-feira, 6 de julho de 2017

Tia linda 2


Foto: Waldir C. Marinho
Oi tia linda.

Há um tempão não os falamos. Como está você tia? Muito melhor agora, tenho certeza disso. O tempo vai realmente resolvendo as coisas, não é mesmo?

Sabe, tia, eu estou gostando demais de escrever. Que eu gosto disso você até já sabia, mas era uma coisa ainda insipiente, agora acredito que estou amadurecendo nos meus escritos. Faço nas horas vagas, ou em viagens longas, ou quando estou esperando no aeroporto. Lembra que você me incentivou muito a escrever? Eu até já havia escrito algumas coisas naquela época, mas é que agora a coisa tomou maior volume, e aqui no blog muita gente lê o que eu escrevo, algumas pessoas gostam e até comentam a respeito. É muito bom compartilhar minha forma de ver a vida, ser lido é uma sensação indescritível. Cheguei até a participar de alguns livros, em antologias, livros amadores e tal, independentes, nada demais, mas sei que você se sentiria orgulhosa disso. Bem, sentiria não, sente, não é?

Tia, o primo, ele fez uma tatuagem enorme no braço. Tenho certeza que você brigaria com ele, mas é que a tatuagem que ele fez... é o seu nome. Pois é, tia, ele tatuou seu nome no braço em letras enormes, e embaixo do seu nome ele colocou a frase: "Sempre comigo", em espanhol, algo assim. Ele te ama demais, tia, demais. Não é para você ficar triste, mas eu queria te pedir, se puder, fique por perto dele. Ele precisa de ajuda, eu acho, ele é um menino muito bom, tem um coração enorme. Se você ficar por perto ele vai ficar muito melhor. Ah, bem, acho que você já está por perto, certo tia?

Bem, ontem no trânsito, tenho que te contar algo que me ocorreu, me pareceu que você estava próxima de mim. Pareceu-me que você se aproximou de alguma forma. Aliás eu resolvi te escrever hoje por conta dessa sensação que me aconteceu ontem. Eu estava no carro, voltando para casa, de repente eu comecei a pensar em você de uma forma muito intensa. Assim, do nada, você me visitou o íntimo. Eu fiquei emocionado. E esta emoção, tia, foi uma sensação boa. Tinha uma certa tristeza sim, aliás acho que era mais saudade, mas também eu senti uma sensação de felicidade um tanto difícil de descrever. O que eu senti mesmo tia, deixa eu tentar explicar, foi que alguma coisa muito boa tinha acontecido com você naquele exato instante. E agora mesmo, escrevendo, me emociono só de lembrar da sensação que eu tive. Eu tive certeza, tia, ontem, que alguma coisa muito boa te aconteceu. Eu senti você feliz, tia. Que bom, tia, que bom sentir isso, e saber que você está bem, que benção ter esta certeza de que coisas muito boas estão te acontecendo.

Rezo por você todos os dias, tia, todos os dias, peço a Jesus que te ampare, que te ajude a vencer quaisquer dificuldades que esteja enfrentando, que te garanta o bem.

Um grande beijo tia. Até a próxima.

Feliz aniversário!




P.S. Escrevi este texto há anos atrás, somente agora decidi publicar, sem quaisquer atualizações. Reflete portanto fatos e sensações e sentimentos da ocasião em que foi escrito. O título do texto se dá pela existência de um outro, cujo link segue adiante. http://waldirmarinho.blogspot.com.br/2011/07/oi-tia-linda.html




segunda-feira, 5 de junho de 2017

Para tudo!


Foto: Waldir C. Marinho
Vi o senhor caído na calçada, na hora do almoço, em frente ao banco ao qual me dirigia, em plena Av. Paulista.
Tive o ímpeto de largar tudo e ajudar.
Chega! 
Chega de omissão, de hipocrisia, chega!
Para tudo! 
Para tudo e ajuda! 
Agora é a hora!
Dizia estas palavras pra mim mesmo. Largar tudo, focar em ajudar o senhor que estava ali, jogado no chão. Este seria o gesto humano a fazer, eu não poderia mais ignorar aquele tipo de situação. Foi como se eu tivesse chegado a um momento de importante decisão em minha vida. Para tudo, ajuda este senhor, deixa o banco pra lá, deixa os afazeres pra lá, permanecia aquela voz interna a me interpelar, tentando me tirar da inação.
Estava indo ao banco pagar uma conta, uma conta que me garantiria alguma satisfação material qualquer, algum conforto qualquer, algo que perdeu totalmente a relevância diante daquele senhor caído na calçada, enquanto os transeuntes passavam indiferentes ao ponto de quase pisá-lo.
Fiquei na porta do banco por instantes em meio a estas reflexões.
De repente percebi que estava incomodando as pessoas que entravam e saíam, e aí despertei um pouco daquele transe louco. Entrei no banco para deixar de atrapalhar as pessoas, ao menos foi esta a covarde é frágil muleta moral que usei para sair daquela situação.
Ainda assim, lá de dentro, fiquei observando o senhor através da parede de vidro que separava o interior do banco da rua.
Naquele instante minha vontade de ajudar já não era tão firme.
Fiquei ali olhando o senhor, com compaixão, sim, mas com meu egoísmo paralisante.
O momento passou.
Fui pagar minha conta.
Saí do banco sem olhar para trás.
Lá ficou o senhor, caído.
E eu segui adiante.
Derrotado.




sábado, 13 de maio de 2017

O Brasil é negro



53,6% da população brasileira é negra. Esta informação está disponível em diferentes fontes na internet, indicada como uma estatística oficial, publicada em 2014 pelo IBGE*.

Sendo a maioria da população brasileira composta por pessoas negras, eu me pergunto, onde estão todos estes nossos irmãos negros? Certamente não estão no condomínio onde moro, pois lá não há uma só família negra, ao menos ainda não vi, e já estou residindo neste local há dois anos. E no condomínio em que eu morava anteriormente, onde residi por mais de 5 anos, somente havia uma família negra. Apenas uma. Da mesma forma quase não encontrei nossos irmãos negros nas escolas em que estudei. Minhas ternas lembranças do ensino primário me trazem apenas um menino negro, lembro até seu nome. No ginasial, no segundo grau, no ensino superior, quantos irmãos negros terei encontrado? Sem medo de errar, em cada classe que estudei eles não chegavam a 5%, e esta estimativa é até generosa. E nas empresas em que trabalhei? Não, lá também eles não estavam, não em maioria, não chegavam a 10% dos funcionários. Nos locais que frequentei, cinemas, parques, shoppings, quaisquer outros lugares, será que em algum lugar em que estive alguma vez o percentual de pessoas negras em meu entorno esteve próximo da estatística oficial? Não creio. Agora mesmo, olhando à minha volta, estou em uma padaria tomando meu café matinal, na região da Consolação, próximo à Av. Paulista, em São Paulo Capital. Vejo cerca de 30 clientes. Não há uma só pessoa negra.

Porque será isso?
Onde estão nossos irmãos negros? 
Onde estarão estes mais de 50% de negros que compõem a população brasileira?
Estarei eu frequentando os lugares errados? 
A triste explicação para isto estará no fato de que nossos irmãos negros permanecem segregados até hoje, senão nas senzalas, mas nos guetos de maior pobreza, nas periferias do nosso país?

Brasil, 53,6% negro, um país extremamente racista. Esta não é uma conjectura, é uma afirmação.  Baseada em minha vivência, sim, mas me arrisco a estendê-la a todas as vivências e a todo o pais. Perguntaram-me um dia desses se sou a favor das cotas raciais. Diante deste quadro, como alguém poderia ser contra? No entanto tais iniciativas me parecem tentativas frágeis na busca de uma difícil solução imediata. Sim, pois, o que precisa mudar é o ser humano. Nem me atrevo a tentar apontar caminhos.

Ah, agora percebi, aqui na padaria onde estou, vejo uma pessoa negra. Uma só. Acabou de passar por mim apressada. Uma jovem senhora, vestindo uniforme, com um avental, servindo café aos clientes. Pois é.

Que Deus a abençoe.

Sinto muita, muita vergonha.





*Não encontrei uma fonte direta do IBGE que confirme este número, embora variados sites apontem este dado. Segue link com esta informação publicada em um site confiável.
https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2015/12/04/negros-representam-54-da-populacao-do-pais-mas-sao-so-17-dos-mais-ricos.htm


quarta-feira, 5 de abril de 2017

Pinguinho

Foto: Adriana Marinho
então em nós nasceu o amor
com as bênçãos de nosso Senhor
nos refazendo em esperança
milagre em tez de criança

lindo, é pura alegria
terna beleza, que energia!
um renascer em nossas vidas
singela estrada florida

vai e vem, pra lá e pra cá
explora, testa, toca, sem parar
inocência, pureza, fantasia
o que quer é viver, noite e dia

notas de tão linda canção
novo bater no coração
sempre feliz e sorridente
nosso pinguinho de gente



terça-feira, 21 de março de 2017

Que livro será este?


Foto: Waldir C. Marinho
Hoje meu dia foi especialmente povoado por meus companheiros de... se assim posso dizer... mesma ideologia. 
Logo que entrei no metrô encontrei um senhor à minha frente, compenetrado, lendo seu livro.
Em meu trajeto ao trabalho é comum ver pessoas aproveitando o tempo em que utilizam a condução desse jeito, desfrutando de literatura. 
Percorri o vagão com os olhos, vi outras pessoas lendo, uma, duas, três... ah, nossa, sete! 
Sete pessoas com seus livros em mãos em um mesmo vagão!
Um recorde!
Eu os entendo, perfeitamente.
Quis tirar o meu livro da pasta e ser o oitavo naquele vagão, mas não foi possível pela posição em que eu estava, de pé e com as mãos ocupadas.
Poxa.
Só fiquei ali, observando-os.
Invejando-os, rs.
Após sair do trem, quando iniciei a subida pela longa escada rolante, notei alguém lendo logo à minha frente.
Dei aquela olhadinha tímida tentando ver a capa.
Que livro será este? 
Eu sou assim, não consigo ver alguém lendo sem ficar louco de curiosidade em saber qual é o livro. 
Tentei mais uma vez ver o título, já no finzinho da subida. 
Não consegui.
Ao sair da estação passou à minha frente uma adolescente caminhando enquanto lia. 
Uau, isso é que é gostar de ler!
Será que eu já fiz isso algum dia? 
Ah, sim, já fiz, reconheci encabulado.
Acho até que fiquei corado.
Cheguei à padaria ao lado do escritório, sentei, pedi meu café.
Ah, agora chegou minha vez!
Tinha apenas uns dez minutos, dez maravilhosos minutos.
Tirei meu livro da pasta.
Antes de começar, porém, vi que uma senhora estava sentada na mesa ao lado, lendo.
Mas ora veja, tantos de nós ainda no início da manhã?
Creio que nunca havia visto tantas pessoas com livros em mãos num mesmo dia.
Não é lindo isso?
Um dia bem prolífico, intelectualmente prolífico.
Novamente tentei mas não consegui ver o título do livro.
Pensei até em perguntar à senhora, mas decidi não interrompê-la.
Até porque nós preferimos não ser interrompidos.
Deixei ela lá com seu livro, e eu cá com o meu.
A sociedade costuma valorizar mais as pessoas que falam, que gostam de se expressar verbalmente, que tagarelam sem parar.
Mas nós somos diferentes, somos assim, calados.
Que bom.
Ah, leitores, esses companheiros silenciosos!
Abri meu livro.
Respirei fundo.
Viajei.



sábado, 4 de fevereiro de 2017

Maravilhas


Foto: Waldir C. Marinho

Morro do Corcovado, lindo, encimado pela famosa estátua do Cristo Redentor, eleito como uma das maravilhas do mundo moderno, símbolo da Cidade Maravilhosa. 
O que talvez nem todos saibam é que nas encostas de tão conhecido morro há miséria, favelas, guetos, crime. A tal ponto de o visitante ter que tomar cuidado para chegar lá em cima, os desavisados podem errar o caminho e passar por problemas.

MASP, Museu de Arte de São Paulo, maravilha arquitetônica, abrigo de importantes obras de artistas mundiais, símbolo da maior cidade da América Latina, uma das maiores cidades do mundo.
O que talvez nem todos saibam é que no vão do famoso museu há moradores de rua que passam a noite e amanhecem por ali todos os dias. Enquanto isto, bem ao lado, os dignos trabalhadores da cidade circulam pela Av. Paulista, com seus ternos, computadores, celulares, com seu egoísmo. Eu sou um destes.

Pois é, nem tudo aparece no cartão postal.

Diz-se por aí que nunca houve tamanha evolução na humanidade como nas últimas décadas, tecnologia, internet, etc.
Evoluímos? 
Progredimos muito?
Até que ponto prosseguirá nossa cegueira e nossa hipocrisia?

Progresso, que não é para todos, não merece este nome.
A humanidade ainda está nos primeiros passos.
Há ainda muito o que evoluir.
No amor.



sábado, 21 de janeiro de 2017

Partes de mim


Foto: Waldir C. Marinho

Dia destes um amigo, ao ler um recente texto de meu blog, enviou-me mensagem dizendo que aquele não se assemelhava muito ao meu estilo. Ele construiu aquela percepção certamente pelo tom agressivo e palavras rudes daquele meu texto em particular. Eu respondi que se ele fizesse uma pesquisa maior no blog talvez encontrasse outros textos como aquele. Pois é.

Textos, assim creio, são em geral autobiográficos, gritos dos autores buscando compreensão, companhia, ser ouvidos. E nesta linha de pensar, tendo o que aqui escrevo como partes de mim, nem sempre o que se lê é o mais positivo, falho que sou, e aí já vai um pedido de desculpas a todos.

Ah, falho que sou, falho que sou. Escrevo e as lágrimas se aproximam. Teria que estender as desculpas não apenas aos raros leitores, mas também à minha família, a amigos, a Deus. A mim mesmo. Mais um ano começou, gostaria de, nestes meus quase 47 anos de idade, ter feito mais. Ter construído mais. Ter aqui todos comigo, todos, ter uma reunião de todas as pessoas que amo em minha volta. Partes de mim. Não consigo, e me despedaço.

Há muito tempo que não chorava escrevendo. Acho que esse texto é uma oração. Pedindo, ao Pai, ajuda. Pedindo perdão.




sábado, 24 de dezembro de 2016

Se

Foto: Waldir C. Marinho

Se não consigo proferir as palavras mais dignas, ainda posso optar por me calar.
Se hoje nutro sentimentos infelizes, que eu ao menos guarde-os apenas para mim.
Se meus pensamentos continuam a me trair, tenho como tentar pensar algo diferente.
Se ainda assim ideias intrusas me surgem, que eu pense em minha família, em momentos de ternura, em um campo florido, que eu pense no amor.
Se não consigo conduzir corretamente meu olhar, posso elevar meu olhos ao céu.
Se mesmo assim tenho dificuldades, que eu feche os olhos e caia em oração.
Se não estou pronto para praticar a caridade e amparar a um irmão, ainda sou capaz de lhe oferecer um sorriso.
Se minhas palavras, pensamentos, sentimentos, atitudes, por ora não são aquelas que gostaria de ter, que eu ao menos busque fazer, sempre, o melhor possível.
Sim pois, se ainda sou falho, nada me impede de tentar acertar.
Em todos os momentos, Jesus espera por mim.




sábado, 5 de novembro de 2016

Adjetivos

Foto: Waldir C. Marinho
Bem, vou tentar. Nunca foi muito fácil para mim estabelecer um diálogo com você, cara, mas vejamos se consigo te passar algo da minha maneira de ver a vida. Estou com a nítida impressão que é perda de tempo, mas ainda assim tentarei.

Estou falando com você aí mesmo, isso, você. Você que tem mulher e filhos, mas não os respeita. Você cuja esposa te aguarda, em casa, todos os dias, enquanto você fica por aí, permanece na rua sabe-se lá em quais companhias. Companheiros fúteis, mulheres outras, volúveis, vazias. Sim, estou falando com você mesmo, safado.

Aliás safado nem é bem uma palavra adequada a você, não porque não a mereça, mas porque gostar de ser chamado por este tipo de palavra talvez faça parte de sua personalidade. 

Prefiro então te destinar outros adjetivos.

Você é um mau-caráter. Ah, você acha que tem caráter? Pois é, mas não tem. Trai a quem deveria valorizar, desrespeita a quem te respeita. 

Você é um irresponsável. Gasta dinheiro, tempo, energia, consome aquilo que você deveria dedicar à sua família com bebida, bares, saídas, más companhias.

Você é um perdedor, um derrotado. Um grande derrotado. Ah, acertei. Eu tinha certeza que ao saber esta minha opinião você iria pensar isso mesmo que acabou de pensar, então quer dizer que se considera um vencedor? Tá bom. Vencedor porque tem um bom emprego, porque tem dinheiro? Por que tem um carro bonito? Porque possui bens materiais? Mas continua sendo um derrotado. Derrotado como homem. Ah, você se acha homem? Muito macho? Pois é, mas não passa de um moleque. Ser homem não é isso o que você é. 

Vou dizer para você o que é ser homem, o que é ser macho de verdade. Ser homem é tratar as pessoas com cordialidade, com educação, com humildade, com ternura, ser homem é ser solidário, é agir no bem. Ser homem é ignorar tantos convites para fazer o que é errado e persistir fazendo o que é correto. Ser homem é ser honesto, sempre, até nas mínimas atitudes. Ser homem é resistir, bravamente, agindo com moralidade, independentemente dos inúmeros estímulos infelizes ao redor, mesmo que seja tachado pela turba como alguém diferente ou inferior. Ser homem, ser macho de verdade, é tratar sua esposa como mulher sim, como fêmea sim, mas também como amiga, como companheira, como ser humano. Ser homem é respeitar seus amigos, seus colegas de trabalho, seus filhos, sua família. Ser homem é fazer justamente o contrário do que você faz. Você não é macho, você é um covarde.

Você é um mentiroso. 
Você é um medíocre. 
Você é um otário.

Até aquele adjetivo que você tem mais medo que seja empregado a você, até esse você merece. Você acha que não, você tem tanta certeza que esta palavra não se aplica a você que até não está entendendo do que estou falando. Eu me refiro ao adjetivo com o qual você qualifica sua esposa tanto quando pode, quase todos os dias, contra a vontade dela, sempre que você sai com essas vadias que te acompanham. Isto mesmo! Sim, esta palavra também se aplica a você. Se ainda não se aplica, com esta sua conduta logo se aplicará. Como não? Meu caro, tenha certeza, a paciência um dia acaba. Pode ser que neste exato momento sua esposa já tenha feito o mesmo a você. Fica esperto. Como dizem, a fila anda, se é que já não andou. 

É isso mesmo, seu corno.





P.S.: Lamento pelas propositais, enfáticas, mas sinceras, palavras rudes. No texto me dirijo a um homem, até porque considero que este tipo de conduta infeliz descrita é mais comum entre os homens, mas infelizmente há mulheres que também agem de maneira semelhante. Se escrevo um texto como este é por acreditar que o ser humano colhe de acordo com aquilo que planta. Mas também acredito que nunca é tarde para mudar. Quero enfatizar: Nunca é tarde para mudar. É no que acredito. E não há melhor momento para iniciar esta mudança, de pensamento, de sentimentos, de conduta, de atitude, do que o presente instante, do que o exato agora.









sábado, 1 de outubro de 2016

Sons

Foto: Waldir C. Marinho
Clique, fez o semáforo, quando passei por ali em direção ao ponto. Tinha razão o autor de um texto que li quando criança, os semáforos realmente emitem um quase inaudível clique quando mudam de cor. Seria impossível essa percepção não fosse tão cedo, antes das seis da manhã, e a avenida vazia, silenciosa. Ou terá sido obra de minha imaginação sonolenta? Nem sei.

A vida desperta aos poucos, em meio ao breu. Enquanto caminho me alcançam os tons pastéis obnubilados pela escuridão, a miscelânea de odores, e principalmente os sons. O leve farfalhar das folhas de uma árvore na praça. Pequenos trinados. Um tilintar à distância. Meus passos. O vibrar do dia que inicia.

O som de algo vindo adiante, vejo um rapaz em uma bicicleta, deve ser aquele da mochila. De fato, sempre no mesmo horário. A rotina do homem se mostra junto aos sinais naturais, o céu, a brisa. Natura e urbe se mesclam, em recíproco flerte, em comunhão.

Paro no ponto, ainda sozinho. Mas não, noto um roçar mais acima, por entre os ramos da pequena árvore ensombreada logo ao lado. Meu companheiro de toda manhã, o bem-te-vi canta, uma vez, me desejando bom dia. Pra você também meu amiguinho. O passarinho sempre está ali mas, no escuro, apenas o percebo através dos sons. 

Ouço o longo e suave chiado rotineiro, ah, então são seis horas. No outro lado da rua, lá na frente, o posto de combustível inicia as atividades, e o rapaz de sempre recolhe as correntes que cercam o ambiente, arrastando-as pelo chão.

Mais adiante a padaria, já acesa, distantes sons, alguém puxa uma mesa, um alegre assobio, consigo ver a funcionária que, enquanto prepara o salão para o expediente, entoa uma canção, anunciando o despertar de uma nova manhã.

Passos, vagarosos, certamente é aquele senhor. Ele mesmo, vejo-o chegar devagar. Deve ter mais de setenta, mas sempre está ali indo ao trabalho com sua pastinha surrada. "Bom dia", ele me abençoa ao passar por mim, eu respondo, sorrindo, esperando que à altura. Sinto simpatia. Sinto compaixão.

Som característico de um veículo que logo aparece após a curva. 
Vem chegando minha condução. 
Sigo em frente. 
Amém.