sábado, 22 de dezembro de 2018

Vivo

Foto: Waldir C. Marinho

Mais um dezembro. 
Especial época do ano.
Tenho procurado publicar aos dezembros, por conta do nascimento de Jesus, textos com temáticas que se aproximem, ou tentem se aproximar, do espírito pertinente à data. 
Mas agora, neste dezembro de 2018, eu creio, isto não ocorrerá.
Continuo, há quase dez anos, a postar por aqui meus escritos, ora mais inspirados, ora nem tanto. 
Creio que se eu parar isto me fará muito mal, principalmente por este motivo insisto em continuar. 
Mas me dá a impressão, nestes dias de vídeos e mensagens e comunicações dinâmicas, que as pessoas não têm mais paciência para ler nada. 
Em meio a recentes fechamentos de livrarias tradicionais esta minha sensação aumenta.
Imagina se alguém iria perder "preciosos segundos" lendo este texto, fadado a ser mais um grito na escuridão.
Mas que seja.
Muito embora eu não esteja lá muito inspirado.
Talvez tenham razão em não ler.
Sinto um variado misto de sensações conflitantes a respeito de minha escrita e de meu estado de espírito. 
Já escrevi melhor. 
Já me senti melhor. 
Não venho me percebendo tão próximo de Deus a ponto de me considerar apto. 
A ponto de me considerar digno.
Não me vejo, por agora, uma pessoa tão boa como anteriormente me via.
Distâncias, egoísmos, indiferenças.
Falhas.
Pois é.
Assim sigo.


O texto poderia parar por aqui, mas foi quando fui alcançado.
Pela canção.
Independentemente de minhas propensas falhas e distâncias, aparentes egoísmos e possíveis indiferenças. 
Não desistam de mim.
Não desisto de mim.
Talvez não tenha me tornado alguém assim tão complicado.
Foi o que me trouxe a linda canção.
E profundamente me comoveu.
Lea Michele - Deus - veio me recordar.
As lágrimas que caem parecem confirmar.
O amor 
está vivo 
em mim.



domingo, 25 de novembro de 2018

A rosa



Soltaram uma bomba tão grande que, se ela estourasse lá em Monte Alegre, alcançaria a gente aqui na Boa Vista! - Foi o relato contundente e definitivo do menino, diante da incredulidade da audiência. Todos crianças.

Pouca gente, principalmente de fora do estado, se dá conta que no Rio de Janeiro há região rural, roça, gado, estradas de barro, isso tudo. E eu mesmo, da capital, certamente somente pude vivenciar tais coisas por conta de meu pai ter nascido em um local como o que cito, no caso o município de Santo Antônio de Pádua, interior do Rio. Tive a grata satisfação de passar muitos momentos de minha vida, principalmente quando eu era bem pequeno, nesta região, onde meu pai viveu sua infância. Ele sempre teve o hábito de viajar para sua terra natal ao menos uma vez por ano, íamos todos, meu pai e minha mãe, eu e meus irmãos. Muitas alegrias e descobertas naquelas paragens. Será que alguém que ora me lê tem noção do que é ir dormir logo que escurece, sob a luz de um lampião? Lá eu conheci carro de boi e aprendi que ele produz um som inconfundível, quase um lamento. Pude pegar fruta no pé. Conversar junto à fogueira ao anoitecer, ouvindo 'causos' sobrenaturais que só estes dariam um texto à parte; aliás, em meio ao escuro por conta da energia elétrica ainda estar bem longe, lá eu descobri que na completa escuridão, após ouvir aquelas histórias, antes de dormir, fantasmas existem mesmo! Meu pai viveu naquela região até o início da fase adulta e, naturalmente, quando pequeno, seu universo pairava em torno principalmente daquilo que chegava a ele oralmente, através de histórias, da escola - e notem, naquele local eram comuns escolas montadas nas próprias residências, com professoras voluntárias - e os poucos livros que apareciam. Internet? Televisão? Imaginem, se nem energia elétrica havia. O muito que meu pai já me contou desta sua fase se mistura ao meu imaginário e às lembranças de meus próprios momentos vividos naquele local, e isto em mim é algo muito prazeiroso de se ter e sentir.

Boa Vista é um lugarejo próximo à sede do distrito de Monte Alegre, cerca de 2 km de ruas de barro separam um local do outro. Esta foi a referência de distância utilizada para exemplificar o "poder" da tal bomba que havia sido explodida bem longe dali, conforme relato ouvido pelo meu pai quando era bem pequeno, relato este que citei no início do texto e que certamente foi contado a ele na ocasião por alguma outra criança, um menino mais velho que ele, talvez. 

Quando a tal bomba estourou, essa que, segundo a visão da criança, se fosse explodida em Monte Alegre alcançaria a eles ali, na Boa Vista, a dois quilômetros de distância; quando isso ocorreu meu pai tinha 10 anos de idade. 

Era o ano de 1945 e o nosso mundo passava por dias bem turbulentos e tristes.




terça-feira, 25 de setembro de 2018

Sob a névoa

Foto: Waldir C. Marinho


NÃO!
não
difusa, a ideia, se afasta
dor?
ou o que?
sumiu
ou escondi
o que quer que fosse
sob a névoa.



quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Resgate

Foto: Waldir C. Marinho

Batata doce na brasa. 
Penetrou-me as narinas, e a alma.
Caminhava rumo ao metrô, esquina da Paulista com a Pamplona, quando fui atingido.
Imediatamente os olhos marejados, o íntimo alcançado, o peito opresso.
Procuro no entorno, surpreso, um tanto atônito.
Em meio ao barulho, movimento, pessoas, volto à infância.
Deus tentando o resgate deste louco aqui, endurecido pelo dia a dia, pelo egoísmo, pelas distâncias, pelas rupturas, pela falta de amor. 
Por tantas outras coisas, provocadas, permitidas, por mim mesmo.
Os carros passam.
Os olhos ardem. 
Lágrimas.
Talvez tenha sido a fumaça.
Sim, da fogueira.



sexta-feira, 20 de julho de 2018

Um rato, um rato!


Foto: Waldir C. Marinho

O rato branco foi pintado de cinza, sei lá como, acho que foi o Wagner, ou o Geléia, só sei que ficou parecendo rato de esgoto mesmo. O professor foi avisado, Isnar, um cara gordão, enorme, daqueles professores sacanas. "A gente vai soltar o rato na sala". Hã? O professor sacana achou o máximo, deu o maior apoio. E assim foi. O que mais ficou marcado em mim, da cena, foi a onda. E o que o professor fez. Bem lá na frente sentavam-se, em maioria, meninas, da turma que sempre foi da manhã, e de repente se depararam com um rato correndo a seus pés em plena sala de aula.

Nossa turma do segundo grau foi considerada uma das melhores do GPI por dois anos seguidos. No terceiro ano, pré-vestibular, a direção do colégio decidiu juntar as duas melhores turmas, a nossa e uma outra, certamente pretendendo formar uma turma grande e forte, que talvez gerasse resultados importantes. Mas não deu certo. Bem, não totalmente. Fomos transferidos para o turno da manhã, em uma sala diferente, enorme, que vinha sendo utilizada nos anos anteriores pela tal outra turma ótima. Naturalmente aquela outra classe já estava habituada com o local, os alunos eram conhecidos pelos inspetores e funcionários do turno da manhã e até uma boa parte dos professores eram diferentes, novos para nós. No início do ano de 1986 ali chegamos, com fama de uma boa classe, mas acabamos nos tornando meio que párias em um lugar estranho, ocupando o fundo da sala. Nós éramos os intrusos que vieram da tarde. Tratava-se, para nós, de um terreno desconhecido. As tais duas ótimas turmas não se integraram; a nossa, que já vinha de dois anos seguidos junta, continuou em grande parte unida, mas lá no fundão. Foram praticamente duas classes diferentes em uma mesma sala. Não sei quanto aos outros colegas, mas eu achava aquela turma da frente, fora algumas exceções pontuais, um bando de bestinhas que se achavam os tais e nos ignorava. Bem, esta era a minha visão aos 15 ou 16 anos de idade. E, sei lá porque, parece que aquela situação despertou os "piores" instintos daqueles alunos, dos alunos da nossa turma, pois o fundo da sala virou uma baderna geral. Eu disse piores instintos? Baderna geral? Mas foi divertido demais! Alguns professores até acompanharam a bagunça. Só para se ter ideia havia roda de samba durante algumas aulas, com instrumentos e tudo. Pois é.

E então o Wagner, acho que foi ele, aquele maluco, soltou o rato lá na frente, no meio da turminha chata. Soltou o rato e começou a gritar "um rato, um rato!". E veio a onda. O que mais lembro foi esta onda humana, aquela turma de bestinhas lá da frente, quase que em um mesmo movimento, como aquelas "olas" feitas pelas torcidas nos estádios, aquela turma toda foi levantando e pulando e correndo de um canto a outro da sala, fugindo do rato. Eu estava bem atrás onde o rato foi solto, a nossa turma sabia de tudo. A turminha chata da frente na maior confusão e nós atrás às risadas. O professor sacana, que também sabia, o gordão Isnar, para estimular mais a bagunça subiu em uma carteira escolar - imaginem a cena, o cara era dez vezes maior que uma carteira - e ficou de pé dando gritinhos agudos como se fosse uma menina medrosa e mimada, pura "zoação", enquanto a sala havia virado um pandemônio. Este cenário todo, inesquecível, foi uma das coisas mais engraçadas que já testemunhei em minha vida.

Depois deste ano começaram as vidas universitárias para muitos, o tal destino que ora nos mantinha juntos foi nos separando, cada um com suas realidades e trabalhos e atividades e caminhos díspares. Mas depois daquela época alguns daquele grupo continuaram a se encontrar e durante um bom tempo estas reuniões foram bem frequentes, chegamos até a viajar juntos. Ainda hoje há encontros periódicos, mais esporádicos, principalmente do pessoal que continua residindo na cidade do Rio de Janeiro.

Foi uma época única, saudosa época, da turma da chapeleta, no GPI Madureira. E aí já se vão mais de trinta anos.

Ana Cláudia, Ana Paula, Fábio, Geléia, Luca, Marcelo, Maristela, Mônica, Miúcha, Reinaldo, Sheila, Smiley, Tião, Wagner, são estes alguns nomes, em ordem alfabética, que marcaram minha história; e já peço perdão aos inúmeros outros que também poderia citar.

Acho que todos já passaram por situações inesquecíveis na infância, na fase escolar então isso é bem comum, e o interessante é que ao passarmos por tais momentos não nos damos conta, enquanto os vivemos, de o quão eternos estes momentos são. Escrevo estas linhas e, sinceramente, uma forte emotividade me atinge. Não sei nem ao certo definir o que sinto, e tentando entender, me compreender, posso citar que aqueles saudosos dias daquela classe ficaram marcados em todos aqueles que os viveram. Mesmo à distância, sentimo-nos, até hoje, grandes amigos. Mais que isso, irmãos mesmo.

Creio que este texto é isso, uma celebração à amizade, à irmandade. Uma celebração ao amor.




terça-feira, 5 de junho de 2018

Sem comentários


"Eu tenho algo a dizer..." 
- Racionais MCs, em Voz ativa.

Um grito no vazio, poderia ser este o título. Há quase dez anos escrevo, tenho este hábito, que me faz muito bem. Muitas linhas aqui neste espaço desde 2010. Sinal de que, como os Racionais, eu tenho algo a dizer. Rs. A questão aqui é... alguém me escuta? Melhor seria, sou lido? O número de visitas, a meu ver significativo, pode até indicar que sim. Mas, pela ausência de manifestações destes tantos visitantes, nota-se ser um coletivo, digamos, silencioso.
No início deste blog eram bem comuns os comentários nos textos, diferentes posts de leitores a cada publicação, principalmente de amigos, familiares, com opiniões, elogios, me incentivavam a escrever e tal, e no decorrer do tempo até surgiram comentários de pessoas que não conhecia pessoalmente. Mas, hoje em dia, infelizmente, sem comentários. 
Para quem escreve não há nada melhor que receber um retorno. Sabe-se lá o motivo, talvez por perceber-se ouvido, compreendido. Aceito, quem sabe. Acompanhado. Querido. Receber este tipo de feedback, no meu caso, incentiva-me muito a continuar escrevendo. Como não tenho me sentido muito inspirado ultimamente, seria perfeito. 
O último comentário que tive a honra de receber em um texto aqui no blog, salvo engano, data de 2016. Pois é.
Caro irmão e cara irmã, eu peço, se me deu a honra de ler algum texto, e aí eu já agradeço, e se gostou, ou mesmo se não gostou, por favor, poste um comentário. 
Talvez, na data de hoje, meu aniversário, alguém me traga este presente. Será? 
Seja bem vindo! Abraço!



quinta-feira, 31 de maio de 2018

Quase grito

Foto: Waldir C. Marinho

em dias como o de hoje
em que a inspiração não vem
pergunto o que me mantém
a insistir nestes escritos
expondo o que acredito
mesmo que nada bonito
como agora eu quase grito
eu que já fui mais amor
mais ardor, tesão, paixão
o senão, qual que será?
que me impede derramar
como outrora aqui meu eu
o meu ser e meu estar?
que se deu? quem saberá?
a vontade que se esvai
é distância de meu Pai?
pode ser o fim talvez
mas mesmo assim desta vez
aquilo que se desfez
ora intenta retornar
não do jeito que queria
algo finda de alegria
tampouco a antiga magia
mas o peito ainda urge
pois afinal eis que surge
nesta tarde amarga e fria
em meio a vãos pensamentos
tantos descontentamentos
esta simples poesia




segunda-feira, 30 de abril de 2018

Percalços


Foto: Waldir C. Marinho

Percalços, que ocorram. 
Sabes bem deles, já os conhece. 
Fizeram parte, até aqui, e outros virão. 
Valorizaram mais a caminhada. 
Mas a tal caminhada foi fundamentada por valores. 
Desistir destes, isso sim é que é difícil. 
Seria como desistir de si mesmo.




sábado, 3 de março de 2018

Toque


Foto: Waldir C. Marinho
Era bem cedo, aqueles momentos do nascer do dia, mágicos, em meio a quase silêncios, em que a névoa irradia os primeiros raios e a natureza a dialogar conosco com suavidade, delicadeza, sussurros. Colinas verdejantes aos poucos desnudadas pela luz nascente. O ar fresco a me acarinhar através da janela do meu carro, sons, imagens, sentires. Ouvia um CD do grupo Boca Livre, lindo, e lá no meio de tudo uma canção me surpreendeu. Bastaram os primeiros acordes. Só de escrever agora e a emoção ressurge. Se a sanfona chora eu canto, canto de coração... Ah, naquele dia, naqueles momentos, como chorei. De lá do interior de São Paulo, na estrada rumo à Sorocaba, em um frio início de manhã, as notas arrebataram-me, transportaram-me, a meu pai.

Em alguns momentos em nossas vidas sentimentos nos brotam sem que saibamos bem o motivo. Emoções que parecem irromper no peito sem muitas explicações. Trazidas à tona por estímulos, nem sempre imediatamente identificáveis. Por palavras, quem sabe por odores, sabores, sons... Elementos que parecem nos remeter talvez a nosso passado, a instantes de ternura impregnados em nós, que se conectam a nossa essência de uma forma inexplicável, mas drástica, a ponto de trazer uma emoção, uma lágrima, ou várias, à superfície. Isso acontece comigo normalmente ouvindo música. Basta um trecho, por vezes algumas notas. Não é frequente, mas marcante.

Fico imaginando, para estas pessoas, que conseguem provocar este tipo de sensação, como já provocaram comigo, que benção. Artistas, escritores, músicos, poetas. Arautos da divindade.

Escrevo. Coisas simples, mas sinceras. Quem sabe minhas palavras possam, um dia, fazer este bem a alguém, trazer esta conexão. Despertar emoções como as que já tive. Alcançar a sensibilidade de outrem. Que seja uma única vez. Promover este suave, toque, n'alma. Talvez seja pretensão. Prefiro chamar de esperança.






domingo, 4 de fevereiro de 2018

Cilada

Foto: Waldir C. Marinho
Um mês se passou e quando me dei conta nada publiquei no blog. Não que isso tenha tanta relevância pelo tempo decorrido, afinal já fiquei em outras ocasiões sem postar por bem mais tempo, mas é que nesta situação de agora eu já estava com um texto pronto, escrito há um tempão, e simplesmente deixei passar. Mas ok, publicarei mês que vem.
O motivo deste "deixar passar" é que eu quero aqui enfatizar.
Uma absurda instabilidade interna, desequilíbrio, até espiritual talvez, um mal estar impossibilitando tranquilidade até para tomar um café em paz mesmo nos finais de semana. Quadro motivado por um dia a dia profissional conturbado. Noutro dia comentei com um amigo, brincando - Se eu infartar um dia destes já sabes o motivo. Brincadeiras à parte...
Alguém merece isso? Eis a reflexão. Porque chegamos a este estado de coisas? Sei que não é exclusividade minha.
Cobranças, ok. Metas, correto. Prazos todos temos. Mas ter que lidar com desrespeito, dissimulação, ironia, sarcasmo, desonestidade? Valores tortos presentes em muitas empresas motivados sei lá porque. Pessoas que atropelam outras sem medir o dano. 
Onde a camaradagem, a solidariedade? 
Cadê a compreensão, a amizade? 
Por onde estará o espírito de equipe na busca conjunta de objetivos comuns?
Ah, por favor. O ser humano precisa sair desta cilada. Desta busca perene pelo "bem estar" próprio em detrimento do outro. Sei que acaba sendo algo motivado por este dia a dia competitivo, o ambiente corporativo insano, desemprego desenfreado, falta de perspectiva, falta de dinheiro, contas que vencem. 
Rolo compressor. Trator passando por cima de todos.
Sei não, precisamos de um basta. 
Estamos enlouquecendo. 






domingo, 24 de dezembro de 2017

Hoje

Foto: Waldir C. Marinho
hoje acordei leve
e vi o mundo 
em comunhão com meu vibrar
o ar mais puro
os passos mais firmes
o peito sereno
os fatos com mais significados
até as sombras me pareceram belas
as pessoas mais queridas
mais amor
hoje sorri para a vida
e ela me retribuiu 
com mil afagos
bençãos recebi
tantas cores percebi
sabores, perfumes, saudades 
hoje consegui ver as árvores
e ouvir os passarinhos
pude sentir o sol nascente
olhar adiante
e contemplar o horizonte 
iluminado e feliz




segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Ah, Deus meu

Foto: Waldir C. Marinho

Ah, Deus meu, Deus meu. Desculpe-me. Pelo que nem sei. Só sei que se senti esta necessidade. De diálogo, de proximidade. As lágrimas que quase rolam assim o comprovam. Onde estás bem sei. Em tudo, em todos. Onde estou eis a questão. Complexo, viver. Não posso assim me sentir, não há vazio, há amor. Ah como há. Não me sinto vão. Não me sinto à deriva. Tenho que me lembrar sempre disso e esta conversa me ajuda. Sei que aí estás e que sua condução é eterna. Quero descansar em ti, assim como dizem muitos irmãos. Descansar em ti. Sabes o que fazes comigo. Sei de minhas responsabilidades, sabes bem. Mas por vezes, por vezes, é bom descansar um pouco. Permita-me, só um pouquinho. Conduza-me. Te amo. Amém.



domingo, 15 de outubro de 2017

Amado irmão

Foto: Waldir C. Marinho

Anjo querido que me guia
Vem em minha companhia
Na medida do meu merecer
Preciso muito de você

Tanto erro, caro amigo
Ainda assim insistes comigo
Na luta intensa de todo dia
Construindo a futura alegria

Quero um dia te abraçar
Com lágrimas no olhar
Frente a frente amado irmão
Trazer-te ao meu coração 





segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Um passo pra trás


Foto: Waldir C. Marinho
Nem sei porque estou tão incomodado se estou sentado, desta vez consegui. Não encontro posição para apoiar a cabeça, queria tirar um cochilo. Dormi tão pouco nesta madruga. Muita gente de pé, o maior aperto. Um garoto com fones cantarola desafinado, me incomoda. Mas coitado, só com música mesmo pra ir levando. Duas adolescentes trocam palavras, reclamam dos seus trabalhos. Com esta crise, gente, melhor reclamar não. Está todo mundo sendo dispensado, ontem lá na firma foram mais dois. E quem continua, se entreolhando, calado. Se bem que falaram que tudo ia ficar bom, certo? E no Jornal Nacional os números da economia estavam melhores. Foi o que disseram. "Um passo pra trás por favor", diz o condutor. Rá, até parece. Cochichos, bufadas, reclamações. Um cabra enorme lá no meio empaca pior que jumento e não dá nem meio passo. Fica represando o pessoal apertado entre ele e a catraca. Ninguém tem coragem de falar com o cara, que continua parado. Talvez seja a forma dele de reagir ao sistema. Talvez esteja desempregado. Ou o seu patrão o oprima, normal. Ou quem sabe aquele tal presidente esteja mexendo nos seus direitos trabalhistas, consolidados há séculos, vai saber. Cada qual com seus problemas. E aí o cara responde assim à vida, não quer dar o passo pra trás. A maioria, mesmo incomodada, acaba cedendo. Mas tem gente que é igual a este cara, resiste. Ao menos tenta. Afinal quem gosta de dar passos pra trás, né? Se bem que às vezes é inevitável. E assim vamos seguindo no buzão superlotado. É nóis.




sábado, 5 de agosto de 2017

Obrigado

Foto: Waldir C. Marinho

obrigado
por me encontrar
por se arriscar
por abrir mão de si
por apostar tão alto
e se aproximar de mim
lá onde eu estava
um tanto disperso 
no meu canto

obrigado
por ser assim tão linda
entregue
próxima
amorosa
calorosa
conectada
ligada em mim

obrigado
por estar junto
pela companhia
pela alegria
pelo futuro à frente
pelo nosso amor
pelo nosso filhinho
lindo
pelos corações
em uníssono

obrigado
por me fazer perceber
querido
amado
desejado

obrigado
por me fazer sentir
um homem
com H mais que maiúsculo
em caixa alta
altíssima

obrigado
por me mostrar capaz de um monte de coisa que não fazia idéia
por fazer minha auto estima ir lá em cima
por me amar assim desta maneira
meio louca
impensada
intensa
sem medir consequências

obrigado 
por abrir-me sua casa
sua família
seu coração

escrevo em lágrimas

te amo



quinta-feira, 6 de julho de 2017

Tia linda 2


Foto: Waldir C. Marinho
Oi tia linda.

Há um tempão não os falamos. Como está você tia? Muito melhor agora, tenho certeza disso. O tempo vai realmente resolvendo as coisas, não é mesmo?

Sabe, tia, eu estou gostando demais de escrever. Que eu gosto disso você até já sabia, mas era uma coisa ainda insipiente, agora acredito que estou amadurecendo nos meus escritos. Faço nas horas vagas, ou em viagens longas, ou quando estou esperando no aeroporto. Lembra que você me incentivou muito a escrever? Eu até já havia escrito algumas coisas naquela época, mas é que agora a coisa tomou maior volume, e aqui no blog muita gente lê o que eu escrevo, algumas pessoas gostam e até comentam a respeito. É muito bom compartilhar minha forma de ver a vida, ser lido é uma sensação indescritível. Cheguei até a participar de alguns livros, em antologias, livros amadores e tal, independentes, nada demais, mas sei que você se sentiria orgulhosa disso. Bem, sentiria não, sente, não é?

Tia, o primo, ele fez uma tatuagem enorme no braço. Tenho certeza que você brigaria com ele, mas é que a tatuagem que ele fez... é o seu nome. Pois é, tia, ele tatuou seu nome no braço em letras enormes, e embaixo do seu nome ele colocou a frase: "Sempre comigo", em espanhol, algo assim. Ele te ama demais, tia, demais. Não é para você ficar triste, mas eu queria te pedir, se puder, fique por perto dele. Ele precisa de ajuda, eu acho, ele é um menino muito bom, tem um coração enorme. Se você ficar por perto ele vai ficar muito melhor. Ah, bem, acho que você já está por perto, certo tia?

Bem, ontem no trânsito, tenho que te contar algo que me ocorreu, me pareceu que você estava próxima de mim. Pareceu-me que você se aproximou de alguma forma. Aliás eu resolvi te escrever hoje por conta dessa sensação que me aconteceu ontem. Eu estava no carro, voltando para casa, de repente eu comecei a pensar em você de uma forma muito intensa. Assim, do nada, você me visitou o íntimo. Eu fiquei emocionado. E esta emoção, tia, foi uma sensação boa. Tinha uma certa tristeza sim, aliás acho que era mais saudade, mas também eu senti uma sensação de felicidade um tanto difícil de descrever. O que eu senti mesmo tia, deixa eu tentar explicar, foi que alguma coisa muito boa tinha acontecido com você naquele exato instante. E agora mesmo, escrevendo, me emociono só de lembrar da sensação que eu tive. Eu tive certeza, tia, ontem, que alguma coisa muito boa te aconteceu. Eu senti você feliz, tia. Que bom, tia, que bom sentir isso, e saber que você está bem, que benção ter esta certeza de que coisas muito boas estão te acontecendo.

Rezo por você todos os dias, tia, todos os dias, peço a Jesus que te ampare, que te ajude a vencer quaisquer dificuldades que esteja enfrentando, que te garanta o bem.

Um grande beijo tia. Até a próxima.

Feliz aniversário!




P.S. Escrevi este texto há anos atrás, somente agora decidi publicar, sem quaisquer atualizações. Reflete portanto fatos e sensações e sentimentos da ocasião em que foi escrito. O título do texto se dá pela existência de um outro, cujo link segue adiante. http://waldirmarinho.blogspot.com.br/2011/07/oi-tia-linda.html




segunda-feira, 5 de junho de 2017

Para tudo!


Foto: Waldir C. Marinho
Vi o senhor caído na calçada, na hora do almoço, em frente ao banco ao qual me dirigia, em plena Av. Paulista.
Tive o ímpeto de largar tudo e ajudar.
Chega! 
Chega de omissão, de hipocrisia, chega!
Para tudo! 
Para tudo e ajuda! 
Agora é a hora!
Dizia estas palavras pra mim mesmo. Largar tudo, focar em ajudar o senhor que estava ali, jogado no chão. Este seria o gesto humano a fazer, eu não poderia mais ignorar aquele tipo de situação. Foi como se eu tivesse chegado a um momento de importante decisão em minha vida. Para tudo, ajuda este senhor, deixa o banco pra lá, deixa os afazeres pra lá, permanecia aquela voz interna a me interpelar, tentando me tirar da inação.
Estava indo ao banco pagar uma conta, uma conta que me garantiria alguma satisfação material qualquer, algum conforto qualquer, algo que perdeu totalmente a relevância diante daquele senhor caído na calçada, enquanto os transeuntes passavam indiferentes ao ponto de quase pisá-lo.
Fiquei na porta do banco por instantes em meio a estas reflexões.
De repente percebi que estava incomodando as pessoas que entravam e saíam, e aí despertei um pouco daquele transe louco. Entrei no banco para deixar de atrapalhar as pessoas, ao menos foi esta a covarde é frágil muleta moral que usei para sair daquela situação.
Ainda assim, lá de dentro, fiquei observando o senhor através da parede de vidro que separava o interior do banco da rua.
Naquele instante minha vontade de ajudar já não era tão firme.
Fiquei ali olhando o senhor, com compaixão, sim, mas com meu egoísmo paralisante.
O momento passou.
Fui pagar minha conta.
Saí do banco sem olhar para trás.
Lá ficou o senhor, caído.
E eu segui adiante.
Derrotado.




sábado, 13 de maio de 2017

O Brasil é negro



53,6% da população brasileira é negra. Esta informação está disponível em diferentes fontes na internet, indicada como uma estatística oficial, publicada em 2014 pelo IBGE*.

Sendo a maioria da população brasileira composta por pessoas negras, eu me pergunto, onde estão todos estes nossos irmãos negros? Certamente não estão no condomínio onde moro, pois lá não há uma só família negra, ao menos ainda não vi, e já estou residindo neste local há dois anos. E no condomínio em que eu morava anteriormente, onde residi por mais de 5 anos, somente havia uma família negra. Apenas uma. Da mesma forma quase não encontrei nossos irmãos negros nas escolas em que estudei. Minhas ternas lembranças do ensino primário me trazem apenas um menino negro, lembro até seu nome. No ginasial, no segundo grau, no ensino superior, quantos irmãos negros terei encontrado? Sem medo de errar, em cada classe que estudei eles não chegavam a 5%, e esta estimativa é até generosa. E nas empresas em que trabalhei? Não, lá também eles não estavam, não em maioria, não chegavam a 10% dos funcionários. Nos locais que frequentei, cinemas, parques, shoppings, quaisquer outros lugares, será que em algum lugar em que estive alguma vez o percentual de pessoas negras em meu entorno esteve próximo da estatística oficial? Não creio. Agora mesmo, olhando à minha volta, estou em uma padaria tomando meu café matinal, na região da Consolação, próximo à Av. Paulista, em São Paulo Capital. Vejo cerca de 30 clientes. Não há uma só pessoa negra.

Porque será isso?
Onde estão nossos irmãos negros? 
Onde estarão estes mais de 50% de negros que compõem a população brasileira?
Estarei eu frequentando os lugares errados? 
A triste explicação para isto estará no fato de que nossos irmãos negros permanecem segregados até hoje, senão nas senzalas, mas nos guetos de maior pobreza, nas periferias do nosso país?

Brasil, 53,6% negro, um país extremamente racista. Esta não é uma conjectura, é uma afirmação.  Baseada em minha vivência, sim, mas me arrisco a estendê-la a todas as vivências e a todo o pais. Perguntaram-me um dia desses se sou a favor das cotas raciais. Diante deste quadro, como alguém poderia ser contra? No entanto tais iniciativas me parecem tentativas frágeis na busca de uma difícil solução imediata. Sim, pois, o que precisa mudar é o ser humano. Nem me atrevo a tentar apontar caminhos.

Ah, agora percebi, aqui na padaria onde estou, vejo uma pessoa negra. Uma só. Acabou de passar por mim apressada. Uma jovem senhora, vestindo uniforme, com um avental, servindo café aos clientes. Pois é.

Que Deus a abençoe.

Sinto muita, muita vergonha.





*Não encontrei uma fonte direta do IBGE que confirme este número, embora variados sites apontem este dado. Segue link com esta informação publicada em um site confiável.
https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2015/12/04/negros-representam-54-da-populacao-do-pais-mas-sao-so-17-dos-mais-ricos.htm


quarta-feira, 5 de abril de 2017

Pinguinho

Foto: Adriana Marinho
então em nós nasceu o amor
com as bênçãos de nosso Senhor
nos refazendo em esperança
milagre em tez de criança

lindo, é pura alegria
terna beleza, que energia!
um renascer em nossas vidas
singela estrada florida

vai e vem, pra lá e pra cá
explora, testa, toca, sem parar
inocência, pureza, fantasia
o que quer é viver, noite e dia

notas de tão linda canção
novo bater no coração
sempre feliz e sorridente
nosso pinguinho de gente



terça-feira, 21 de março de 2017

Que livro será este?


Foto: Waldir C. Marinho
Hoje meu dia foi especialmente povoado por meus companheiros de... se assim posso dizer... mesma ideologia. 
Logo que entrei no metrô encontrei um senhor à minha frente, compenetrado, lendo seu livro.
Em meu trajeto ao trabalho é comum ver pessoas aproveitando o tempo em que utilizam a condução desse jeito, desfrutando de literatura. 
Percorri o vagão com os olhos, vi outras pessoas lendo, uma, duas, três... ah, nossa, sete! 
Sete pessoas com seus livros em mãos em um mesmo vagão!
Um recorde!
Eu os entendo, perfeitamente.
Quis tirar o meu livro da pasta e ser o oitavo naquele vagão, mas não foi possível pela posição em que eu estava, de pé e com as mãos ocupadas.
Poxa.
Só fiquei ali, observando-os.
Invejando-os, rs.
Após sair do trem, quando iniciei a subida pela longa escada rolante, notei alguém lendo logo à minha frente.
Dei aquela olhadinha tímida tentando ver a capa.
Que livro será este? 
Eu sou assim, não consigo ver alguém lendo sem ficar louco de curiosidade em saber qual é o livro. 
Tentei mais uma vez ver o título, já no finzinho da subida. 
Não consegui.
Ao sair da estação passou à minha frente uma adolescente caminhando enquanto lia. 
Uau, isso é que é gostar de ler!
Será que eu já fiz isso algum dia? 
Ah, sim, já fiz, reconheci encabulado.
Acho até que fiquei corado.
Cheguei à padaria ao lado do escritório, sentei, pedi meu café.
Ah, agora chegou minha vez!
Tinha apenas uns dez minutos, dez maravilhosos minutos.
Tirei meu livro da pasta.
Antes de começar, porém, vi que uma senhora estava sentada na mesa ao lado, lendo.
Mas ora veja, tantos de nós ainda no início da manhã?
Creio que nunca havia visto tantas pessoas com livros em mãos num mesmo dia.
Não é lindo isso?
Um dia bem prolífico, intelectualmente prolífico.
Novamente tentei mas não consegui ver o título do livro.
Pensei até em perguntar à senhora, mas decidi não interrompê-la.
Até porque nós preferimos não ser interrompidos.
Deixei ela lá com seu livro, e eu cá com o meu.
A sociedade costuma valorizar mais as pessoas que falam, que gostam de se expressar verbalmente, que tagarelam sem parar.
Mas nós somos diferentes, somos assim, calados.
Que bom.
Ah, leitores, esses companheiros silenciosos!
Abri meu livro.
Respirei fundo.
Viajei.