quinta-feira, 30 de junho de 2011

Luz do homem, luz de Deus



Foto: Tatiana Girotto


Saí de São Paulo em direção a Bauru, no fim da tarde. Antes de anoitecer, na estrada, quando a quase noite estava para deixar de ser, e o claro azul se transformava em breu, vi que esta noite seria sem nuvens, e ansiei pela lua como companheira de viagem. Eis que a noite veio, e eu no meio do caminho, mas nada da lua. Aos poucos pude ver uma e outra estrela aparecer. Então eu, sozinho, comecei a procurar estrelas. Aos poucos elas foram aparecendo. Eu dirigia e olhava, para a estrada e o céu, a estrada e o céu. Castelo Branco totalmente às escuras, mas ainda com grande influência das luzes da cidade, e eu comecei a brincar de baixar o farol. Eu apaguei completamente o farol várias vezes. A escuridão que fica é a coisa mais linda. Pode parecer perigoso, mas eu fazia apenas por instantes e acendia os faróis novamente. Lindo. Não sei bem explicar a sensação de ver o nada à frente do carro.
A influência das luzes da cidade, luzes do homem, aos poucos foi enfraquecendo, e as estrelas começaram a ficar mais aparentes, lindas luzes de Deus. Mais e mais as estrelas ficavam mais evidentes, mas ainda assim um tanto pálidas, ao menos no início do caminho. Mas conforme fui distanciando da capital o céu passou a ter menos influência das luzes da cidade, começaram a rarear as construções à beira da estrada, e as luzes divinas foram ficando mais marcantes.
É incrível como as luzes do homem, quaisquer luzes humanas, seja uma lâmpada num poste solitário, seja um automóvel à distância, é incrível como estas luzes do homem podem ofuscar as luzes de Deus. As estrelas somem. Deve ser proposital isso, Deus avisando que só fazemos bobagens, sei lá, ou que não conseguimos reproduzir nem algo próximo, nem um mínimo de sua obra de amor. Devia ser proibido ao homem acender aquelas luzes na estrada, neste dia ao menos isso deveria ter sido proibido, ofuscar as luzes de Deus deve ser um pecado daqueles. Rs.
Em dado momento a estrada ficou vazia, sem luzes dos carros para atrapalhar, e coincidentemente não havia construções próximas. Apaguei os faróis, breu completo, mas a visão do céu através do vidro do carro era complicada, pensei em parar o carro, abrir a janela... mas logo apareceu novamente o homem e sua luz imperfeita e intrusa e ofuscou tudo de novo, uma carreta ousou iluminar a estrada. E mais uma carreta. E mais outra. E voltaram as construções à beira da estrada, iluminadas. Fiquei procurando as estrelas, novamente ofuscadas pelas luzes humanas. Carros que passavam, caminhões. E eu andando mais devagar, buscando um momento sem interferência das luzes humanas, e assim tentei por um bom trecho da viagem. Em certo momento parei num posto de combustível, em vão. Não adiantava, tudo iluminado, as luzes humanas atrapalhavam. Saí e voltei à estrada.
E eis que então, depois de mais algum tempo, aconteceu. Em um trecho da estrada não havia luzes de casas para atrapalhar, nenhuma construção à beira da estrada, nenhuma luz perdida até o horizonte, nenhum brilho de cidade ao longe, perfeito. Encontrei um local fácil para parar o carro, e parei. Encostei o carro no acostamento, liguei o alerta. À minha frente, a poucos metros, uma placa apontava a entrada para Barra bonita e uma outra cidade que não me lembro o nome. Alguns carros ainda passavam, luzes do homem que ainda persistiam, mas seria questão de tempo. E então após alguns minutos não havia mais nenhum carro, nem um, para atrapalhar.
Parado no acostamento, desliguei os faróis e o alerta do carro. Escuridão completa.
Saí do carro.
Olhei para o céu, observei a imensidão.
Por mais que eu já esperasse, ainda assim me surpreendi.
Que espetáculo, que espetáculo.
Luzes de Deus, luzes de Deus, incontáveis, infinitas, beleza indescritível. Profusão de luzes divinas a me inundar os sentidos.
Sei que por toda a viagem Deus me acompanhou, me guardou, me protegeu, olhou por mim.
Mas neste momento, aí fui eu que vi...
...vi Deus
Eu e o céu. Eu e Deus.
À beira da Castelo Branco, fiquei parado, olhando.
O céu da minha infância, aquele que eu havia esquecido, voltou lá do fundo da memória. Que lindo, que lindo, maravilhoso espetáculo. Já havia visto isso antes, somente tinha esquecido que tinha visto. Mas neste dia teve um significado especial.
Fiquei assim por alguns minutos...
E então apareceu um carro ao horizonte. 

E outro. 
E mais outro.
Em dado momento os carros ficaram bem freqüentes, e então resolvi sair daquele local, pois a luz do homem não me deixou mais em paz.
Lembro que liguei os faróis e o motor, entrei rápido com o carro pela estrada, e gritei comigo mesmo SER HUMANO, O QUE HÁ COM VOCÊ? OLHE PARA ESTE CÉU!




P.S.: Essa viagem aconteceu em maio de 2009.






domingo, 29 de maio de 2011

Campeã




Minha filha linda, a minha Mel, passou, aos 4 anos de idade, por uma delicada cirurgia, uma cirurgia cardíaca. É que ela nasceu com um problema no coração que foi diagnosticado desde os primeiros dias de vida. Não apresentava sintomas aparentes mas exigia acompanhamento médico periódico, e como ela estava sempre ótima eu acreditava que continuaria a vida sem necessitar qualquer intervenção. Mas aí em uma consulta de rotina a cardiologista disse que uma cirurgia seria necessária. 

Imaginem. A família entrou numa espécie de colapso coletivo. Ao menos eu entrei, em silencioso colapso. Consultamos diversos especialistas na tentativa de uma opinião diferente, médicos de diferentes hospitais, de São Paulo, do Rio. Todos concordaram com o diagnóstico inicial, uma unanimidade. Os médicos diziam ser uma das mais simples e comuns cirurgias cardíacas. Eu tentava e até conseguia em parte compreender a argumentação estatística dos médicos, mas tratava-se da minha filhinha, de apenas 4 anos, e diante disso qualquer tentativa de pensamento racional é impossível.

Ansiedade total, preocupação, escolha de hospital, de médicos, acerto dos detalhes finais, e enfim chegou o dia da cirurgia. Lembro de um momento especial, a entrada da minha filha no centro cirúrgico. Já sentindo os primeiros efeitos do anestésico a Mel começou a rir, a dar gargalhadas mesmo. Ela nos olhava e ria. Foi embora nos braços do enfermeiro dando risadas e adormecendo aos poucos. Essa foi a última visão que tivemos dela antes da cirurgia. Ela foi e nós ficamos. Ela sorrindo, nós chorando. Deixamos o amor de nossas vidas nas mãos daquelas pessoas, médicos, enfermeiras. Nas mãos de Deus.

A espera foi muito difícil, cerca de sete horas de cirurgia, longas horas, emoção profunda, peitos abertos, de todos nós. No fim deu tudo certo, a cirurgia foi um sucesso, mas não sem muita luta. Luta intensa da guerreira menina.

Minha filha e os atletas tem algo em comum. Vemos nos jogos olímpicos os competidores e seus dificílimos desafios, treinamentos sem fim, dedicação, esforço, sofrimento, dificuldades várias. Mas ao alcançar êxito na competição máxima a emoção, o choro, a festa, e a recompensa. A vitória, representada pela medalha colocada no peito. A medalha é a prova da vitória, exposta com orgulho no peito do atleta.

Naqueles dias que agora recordo, quando minha filhinha passou pela cirurgia, aconteceu também assim, como nas Olimpíadas. Na competição de minha filha teve de tudo, superação, esforço, ansiedade, lágrimas, e muita torcida.

Há vencedores que apresentam suas medalhas de uma forma toda especial, é o caso de minha filha. Até hoje ela leva no peito a prova da sua luta, uma suave linha, tênue marca, quase não se nota, mas está lá, no peito da minha atleta. Esta cicatriz é a sua medalha. Sim, pois minha filha venceu, chegou em primeiro lugar, ela foi campeã. Já se foram quase dez anos e graças à cirurgia minha linda está curada, totalmente saudável. E sabe quem colocou esta linda medalha no peito da minha Mel? Foi Deus.

Seres iluminados, todos, todas as pessoas que nos atenderam e que cuidaram da minha Mel. Médicos, enfermeiros, cirurgiões, demais profissionais, pessoas do bem, especiais, abençoadas.

Outro dia aconteceu algo interessante. Na ocasião da cirurgia da Mel diversas pessoas, amigos, familiares, que foram visitá-la no hospital, deixaram recados para ela em pequenos bilhetes, inclusive eu deixei um. Eu nem lembrava bem do texto deste bilhete que eu deixei, e aí há pouco tempo eu encontrei este recado.

“Querida Mel.
Eu realmente não esperava que com apenas

4 anos você pudesse me ensinar tanto !
Eu te amo, e lhe desejo tudo de bom, saúde,

e uma vida longa e doce como você.
Papai.”


Menina, guerreira, atleta, pequenina, gigante, vencedora, campeã.
Minha Mel, o grande amor da minha vida.
Tenho muito orgulho de ser o pai dela.


domingo, 8 de maio de 2011

Ei, você



Ei, você.
Você aí na minha frente.
Porque você age desta forma?
Não sabe que é preciso fazer o bem?
Então porque continua assim, errando tanto?
Sim, você aí, estou falando com você mesmo.

O que? Você não fez nada errado? Não fez, tem certeza? 
Não foi muito errado? Como assim não muito errado?
Ah, todos fazem? É errado, mas todos fazem? E isso torna o que fez correto? Ou você quer dizer que, já que todos erram, pode errar também? Não acha que seria melhor não errar?
Porque você insiste nisso, em pensar só em si mesmo?
Ah, então você pensa nos outros, é isso o que acha?
E aquilo que você fez outro dia mesmo, naquele dia você estava pensando nos outros? Esqueceu do que fez naquele dia? Lembrou? Ah, entendi, era uma pessoa que você nem conhecia, mas o fato de não conhecer a pessoa que prejudicou torna menos errado o que você fez?
Está querendo enganar a quem?
Pode até enganar outras pessoas, meu caro, mas não a você mesmo.
E certamente não pode enganar a Deus.
Fazer o bem, é o caminho, o único, e você sabe disso.
Sim, errar é humano, ok, mas acertar também é, e meu caro, saiba você, temos escolhas. Fazer o certo ou o errado é uma questão de escolhas, de escolher o certo ou escolher o errado. Não há meio termo.
Ah, tem coisas que são difíceis de avaliar, se são certas ou erradas?
Por vezes você fica na dúvida?
É fácil tirar a dúvida.
Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a você.
É simples, coloque-se no lugar da outra pessoa e terá a resposta. Foi Jesus quem disse isso. A resposta está em cada um de nós, a consciência do que é certo ou errado está em cada um de nós. Só precisamos dar ouvidos a ela.
Sim, e eu sei que você sabe muito bem disso.
Você aí, porque está desviando o olhar? Olhe pra mim.
Você sabe muito bem de tudo isso, então continua errando porque? Porque?
Está com medo de me encarar, de olhar nos meus olhos? Tem vergonha do que tem feito?
Há pessoas que dependem de você.
Das suas ações, do seu exemplo.
Você precisa ser uma pessoa de caráter.
Você precisa honrar os ensinamentos e o bom exemplo dados por seus pais.
Você precisa ser um bom exemplo para sua filha.
Isso é o mais importante de tudo.
Mais que tudo.
Que tudo.
Após momentos de reflexão, a figura em minha frente, aos poucos, cria coragem e ergue a cabeça.
Levanta o olhar.
Olho em seus olhos, nos meus próprios olhos, no reflexo, no espelho.
40 anos, humano, falível, mas com a consciência plena de que tenho escolhas.
E que devo optar pelas corretas.
Se eu errei, a partir de agora acertarei, prometo a mim mesmo. Se acontecer o erro será na busca plena do acerto, sem hipocrisia, sem enganos.
Tenho a chance, a cada dia, a cada instante, de acertar.
De fazer o correto.
Que eu faça então a partir deste exato momento.
Deus espera isso de mim.
De todos nós.


sexta-feira, 22 de abril de 2011

Sorria


Ela tinha um sorriso lindo. Jovem, aparentava no máximo uns 18 anos. Muito simpática, em meio a sorrisos atendia a um rapaz na minha frente. Eu era o próximo na fila, aguardando para pagar meu café em uma loja de conveniência. Eles conversaram um pouco, papo animado. O rapaz foi embora, chegou minha vez. Quando ela começou a me atender fez uma expressão séria, parou de sorrir. Eu olhei para ela tentando entender o motivo, e aí resolvi pedir para mim também aquele seu sorriso. "Mas porque você parou de sorrir na minha vez? Sorria para mim também". Ela estranhou um pouco, mas logo respondeu, "É que achei que o senhor estava bravo, fez uma cara tão séria...". Pois é, nem sei quais preocupações passavam pela minha cabeça, mas o fato é que com minha expressão sisuda apaguei o sorriso da menina. Eu que reivindicava a simpatia para mim não oferecia o mesmo em troca. Claro que depois desta observação dela eu acabei ficando com a expressão mais leve e comecei a sorrir. E aí sim pude merecer receber em troca, enfim, o lindo sorriso da menina. Sorria!


domingo, 10 de abril de 2011

Tem que estar perto


Foto: Mario Marinho


“...eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos ! A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure...” 

O texto acima, atribuído a Vinícius de Moraes, é muito comum na internet. Tentei uma confirmação da autoria, não consegui, e descobri que este trecho é parte de um texto maior, com um contexto mais amplo, que vocês podem encontrar em http://viniciusdemoraes.multiply.com/journal/item/2/Amigos

Não sei ao certo se o trecho acima é ou não do Vinícius, mas independente disso permitam-me discordar dele. Pessoas queridas que “basta saber que existem”? Ah, por favor.

Vinícius de Moraes faleceu com sessenta e poucos anos, sentiu-se mal no banheiro de sua casa e morreu algum tempo depois. Vai saber o que se passou em seu íntimo naqueles instantes, vendo a morte se aproximar. Talvez uma imensa saudade de um monte de gente que ele amava demais mas que há tempos não via. Quem sabe quantas pessoas queridas
 ele gostaria de encontrar naqueles últimos momentos, para estar junto delas, poder tocá-las mais uma vez, caso ele tivesse mais tempo... Senti pena do Vinícius ao imaginar isso.

Há uma certa troca de energia, algo assim, quando estamos perto de pessoas que gostamos. Quando estou com meus pais, meus irmãos, amigos, quando estou com pessoas que eu gosto é muito bom. É ótimo ficar perto de quem eu gosto.

Quando encontro minha filha sinto-me muito bem, bem demais. Nos momentos em que estou com ela parece acontecer em mim algum tipo de... cura. Aliás ela está longe, viajando, não vejo a hora dela chegar.

Na minha opinião não basta gostar, tem que estar perto. Preciso disso. Não precisa nem falar nada, é só estar perto.

Não vejo a hora de estar pertinho de minha linda. Muitas saudades dela.

Bem, paro por aqui, tenho que sair para encontrar a turma. Para jogar conversa fora, passar bons momentos, comer alguma coisa, e, claro, rir bastante. Rsrs. Pessoal, guarda um pedaço de pizza aí pra mim! Fui!






segunda-feira, 4 de abril de 2011

Um passarinho


Foto: Waldir C. Marinho

Um passarinho na sacada de meu apartamento, de madrugada, acordei lá pelas duas da manhã e o encontrei. Chovia. 
Ele estava na beirada da varanda, voltado para fora, de costas para mim. Estava bem na beiradinha, próximo ao precipício, no sétimo andar.
Não sei bem se ele estava doente, se estava dormindo, ou só se abrigando da chuva. Creio que ele estava com frio. Fiquei com vontade de ajudá-lo, mas pensei, será que ele precisava mesmo de ajuda?
Fiquei com esta dúvida, se ajudava o passarinho ou não.
Tive receio de, ao tentar ajudar o pássaro, na verdade o prejudicar. Sim porque, na posição em que estava, com a minha aproximação o passarinho poderia se assustar e tentar voar para fora. E se estivesse doente talvez não conseguisse voar direito, ainda mais no meio daquela chuva toda. Imaginem, do sétimo andar.
Há momentos em que isso acontece, fico na dúvida se ajudo ou não, se vai ser ou não melhor ajudar. Tentando ajudar posso atrapalhar, quem sabe seja melhor para o suposto necessitado agir por si próprio, e pela própria atitude vencer. Mas claro que nestes casos há sempre a chance de errar por omissão. 

Na dúvida não fiz nada, deixei o passarinho com ele mesmo. Sim, tive certo receio do erro, mas ainda assim nada fiz. O passarinho parecia estar estável e resolvi aguardar até o dia raiar. Com o dia claro, se eu percebesse que ele estava realmente com problemas, aí tentaria alguma coisa. Tudo seria mais fácil com a claridade do dia. Voltei a dormir então.
Só que pela manhã, quando acordei, o passarinho não estava mais na varanda.
Teria ele alçado vôo? Teria vencido ou não? Será que foi realmente melhor eu ter deixado por sua própria conta resolver a situação? Ou foi diferente?

Ao imaginá-lo em necessidade, terei eu errado em não ajudar?
Estou sem esta resposta até hoje. 

Acho que é melhor ajudar quando temos vontade, e enquanto temos a chance, não ficar pensando muito. Ir lá ajudar a quem precisa e pronto.
Espero que ele seja um destes passarinhos que agora mesmo vejo, brincando de voar, em meio a este lindo céu azul.



quarta-feira, 23 de março de 2011

Nasci com este defeito


Tenho uma dificuldade em desgostar, em querer mal. Encontro as pessoas, convivo, vejo suas falhas, suas virtudes, e as minhas, como qualquer um por vezes tenho problemas, mas creio que eu tenho uma mania em ver principalmente o que há de melhor em cada uma das pessoas que conheço. Valorizo mais as virtudes, acho que é isso. Ao menos é o que percebo em mim, essa é minha avaliação. Quem me conhece pode dizer se esta avaliação é correta ou não.
Desgostar, isso para mim é algo difícil.
Vejam, desavenças acontecem, comigo, como com todos, momentos de desentendimento, claro. Estou aqui me referindo a algo mais sério, como detestar alguém.
Em diversos momentos da vida eu pensei comigo: Quem será que eu não quero bem? Quem será que eu desgosto? Haverá alguém que eu muito seriamente não goste, deteste mesmo? Nestes momentos, pensando nisso, eu nunca consegui lembrar de alguém.
Por vezes eu até acho estranho isso, como se fosse uma característica negativa minha. Como se eu fosse uma pessoa mais fraca por isso. Como se eu tivesse nascido com este, digamos, defeito.
Pois é, mas é mentira. Tudo o que eu escrevi acima, esqueçam, é mentira. Bem, mentira não, mas um engano. Eu de fato pensava desta forma, mas me enganei ao pensar nisso, passei um bom tempo da minha vida me enganando.
Sim, pois a tal vida, ela me mostrou o contrário.
Mostrou que eu sou capaz, sim, de desgostar bastante, de ter rancor, mágoa, muito grande. De detestar uma pessoa muito mesmo. Algo talvez próximo ao ódio. 

E eu tive certeza disso, que sou capaz disso, sabe quando? No momento de minha separação conjugal. Realmente tenho que admitir, o que eu senti pela minha ex mulher foi algo bem complicado. Muito complicado.
Mas o tempo passa, a vida prossegue. E o tempo passou, e a vida prosseguiu.
E hoje, mais de 2 anos depois, estou bem diferente. É incrível como o tempo se encarrega de realmente fazer as coisas sumirem aos poucos. O tempo cura.
E eu posso dizer a vocês, agora sem engano, ao menos espero, rs, mas o que eu percebo é que realmente sou uma pessoa normal, como todos, sou capaz de detestar sim, como muita gente. Sou capaz então de algo bem próximo do ódio, e até pode ter sido sim o tal ódio o que me ocorreu. Mas também posso afirmar a vocês que sou capaz de me recuperar disso.
Agora, após este tempo todo depois da minha separação, sinto que de fato estou afastado deste sentimento, este que talvez se aproximasse do ódio, do querer muito mal. Vejo que consegui esquecer, bem esquecer não é bem a palavra, vejo que consegui deixar de valorizar certas coisas que antes me eram bem dolorosas.
E saibam, é bem ruim sentir o que eu senti, prefiro sentir outras coisas. Que bom que todo aquele sentimento ruim sumiu, passou. 
Acho que posso chamar isso de perdão.
Mas independente de ter me dado conta disso tudo que eu citei acima, percebo hoje que aquela minha impressão inicial não era totalmente falha, creio que sou uma pessoa que tem uma maior facilidade de gostar do que de desgostar.
Agora tenho certeza, desgostar é péssimo. Prefiro ser como sou, que fraqueza que nada, acho até que é uma virtude. O ódio, este eu dispenso, espero nunca mais sentir isso. Hoje mesmo penso, agora quando escrevo estas linhas, rebusco em minha mente, procuro, e não acho, não acho alguém sobre o qual eu possa dizer: Não gosto desta pessoa, quero mal a ela. Será que eu detesto alguém? Não, não lembro de ninguém. Esta pessoa, não a encontro, mais uma vez isso acontece.
E então, depois desse tempo todo nutrindo sentimentos não muito bons, por problemas da vida, e me vendo agora finalmente afastado destes sentimentos, sabe qual é a sensação que me se mostra em meu íntimo?
Liberdade.

terça-feira, 1 de março de 2011

Ela não sabia andar de bicicleta


Há alguns meses atrás fui passar uma tarde de domingo com minha filha e umas amigas dela no Parque Villa Lobos, na Zona Oeste da cidade de São Paulo. Para quem não conhece é um parque com extensa área verde, brinquedos, quadras poliesportivas, e uma grande pista para andar de bicicleta. Lá é muito legal e fica bem cheio principalmente aos domingos.
Minha filha tem 12 anos e as amigas idade semelhante, entre 12 e 15 anos, em torno disso. Éramos um total de 5 pessoas, eu e as quatro meninas. Lá no parque há bicicletas para alugar, e quando chegamos cada um alugou a sua, e saímos para passear de bicicleta pelo parque.
Só que ao começar a acompanhar as meninas eu percebi que uma delas parecia não saber como pedalar, embora não tivesse assumido isso. Ela tentava fingir que sabia andar de bicicleta, meio envergonhada. Por momentos carregava a bicicleta com as mãos, depois sentava e tentava dar uma ou duas pedaladas, parava, descia novamente, e assim ficou uns instantes. Minha filha e as meninas saíram na frente pedalando, e eu fiquei mais para trás, acompanhando a tal menina que parecia não saber andar de bicicleta. Ela aparentava ter uns 15 anos.
Ao ficar sozinho com ela perguntei se ela sabia andar de bicicleta. Ela meio envergonhada disse "mais ou menos". Eu enfatizei a pergunta, cobrando a sinceridade total, sabe ou não sabe ? E aí ela confessou que não sabia. 
Fiquei imaginando o que tinha provocado uma menina com cerca de 15 anos ainda não saber andar de bicicleta. Lembrei de quando minha filha aprendeu a andar, comigo, há alguns anos. Naquele instante, ao lado da menina, imaginei que ela deveria ser filha de pais separados, me veio essa idéia. Sei lá bem porque pensei nisso. Bem, na verdade supus que talvez ela estivesse meio desamparada no momento da vida em que normalmente as crianças aprendem a andar de bicicleta, por conta de uma suposta separação, e aí quem sabe o pai ou a mãe estivessem mais ocupados com outras questões do que ensiná-la a andar de bicicleta. Espero não estar sendo injusto, mas foi o que eu pensei na hora, foram suposições, idéias que me vieram naquele instante.
Fiquei um tanto angustiado com uma menina com aquela idade ainda não saber andar de bicicleta. Sei lá se talvez motivado por minha própria situação, de recém-separado, eu fiquei um tanto preocupado com o caso da menina.
Na minha cabeça, naquele momento, é um pouco difícil de explicar, mas creio que fiquei meio obcecado com a situação da menina e com uma grande vontade de ensiná-la a andar de bicicleta. Acredito que em meu íntimo eu projetei aquela situação na minha própria vida, talvez eu tenha imaginado se a minha própria filha tinha passado por isso, por uma certa falta de atenção por conta de toda a situação da separação dos pais, sei lá. Não sei bem explicar, como disse, só sei dizer que tudo me incomodou muito e me pareceu muito injusto se de fato aquela menina não sabia fazer uma coisa tão básica, como andar de bicicleta, por conta de uma possível ausência dos pais devido a uma, repito, suposta separação.
As outras meninas sumiram, já estavam longe na pista de bicicleta, e eu fiquei lá atrás com a menina, coloquei na cabeça que iria ajudá-la a aprender a andar de bicicleta. Comecei então a fazer, com a tal menina de uns 15 anos, o que os pais normalmente fazem com seus filhos de bem menos idade, comecei a ensinar ela a andar de bicicleta, a tentar fazer isso. Orientei como andar, como dar impulso, ajudei-a a segurar a bicicleta enquanto a incentivava a pedalar, para depois largar um pouco e deixar ela pedalar sozinha e pegar confiança, este tipo de coisa. Fiquei alguns minutos fazendo isso. E vou lhes dizer, depois de algumas voltas ela já estava quase quase aprendendo, faltava muito pouco.
Só que minha filha tinha disparado na frente, junto com as outras meninas, e eu tinha a responsabilidade de cuidar, claro, de todas, e para variar ninguém respondia ao celular. Continuei com a menina, ensinando a ela, ela quase aprendendo, e ao mesmo tempo preocupado com a minha filha e as outras, quando de repente uma das outras meninas voltou e se juntou a nós, e ao nos ver percebeu toda a situação. E então esta outra menina, a que voltou, começou a também tentar ajudar a menina a aprender a andar de bicicleta. Neste momento resolvi aproveitar a "deixa" e ir atrás de minha filha, deixei as duas para trás, não sem antes elas prometerem atender ao celular quando eu ligasse, rs. Falei para a menina "continue tentando, não desista", e saí pedalando atrás de minha filha. Lá na frente encontrei a minha filha que estava com a outra amiga conversando, sentada num banco no parque. Ela tinha achado estranho o meu "sumiço" mas eu contei a situação, que eu estava ensinando a amiga dela a andar de bicicleta. Percebi que minha filha ficou com uma pontinha de ciúmes por isso. Rs.
Perguntei então para minha filha sobre a tal menina, que não sabia pedalar, se ela era filha de pais separados, o que minha filha confirmou, como eu tinha imaginado. Aliás se não me engano todas as meninas ali presentes, inclusive minha filha, como vocês sabem, são filhas de pais separados.
Acho que as coisas, hoje em dia, estão meio que saindo do controle neste sentido. Não sou contra a separação, muito ao contrário, acredito que todos temos o direito de ser felizes e de buscar isso. Casais vivendo infelizes sob o mesmo teto é algo absurdo, algo a ser evitado, até porque isso é péssimo não apenas para o casal mas também para os filhos. Filhos querem ver os pais felizes. Eu mesmo me separei e não me arrependo, e percebo que me tornei uma pessoa melhor depois disso. Mas a separação é um processo desgastante e acredito que os casais nesta situação, hoje em dia, estejam esquecendo um pouco dos filhos. Há de se tomar cuidado, muito cuidado, com as crianças, quando casais estão passando por um processo de separação. E vejam que há situações absurdas por aí, muito ruins, envolvendo crianças e pais em separação.
Então fiquei ali sentado com minha filha tentando explicar, nas palavras adequadas, toda esta situação que estava em meu íntimo, até para tentar amenizar a pontinha de ciúmes que ela sentia por toda a atenção que eu havia dado para a amiga dela.
Ficamos ali alguns minutos, tomando refrigerante, conversando.
E aí de repente, depois de um certo tempo, chegaram as meninas que tinham ficado para trás. E eis que a menina que até então não sabia andar de bicicleta, acreditem, estava pedalando, toda feliz, junto com a outra. Ela havia insistido e naqueles minutos, com a ajuda da outra menina, conseguiu aprender a andar de bicicleta.
Eu fiquei muito feliz, muito feliz mesmo.
Pois é, mesmo com toda a confusão de hoje em dia, é incrível como as crianças conseguem se adaptar. Nos surpreender, em todos os sentidos. E muitas vezes se mostram muito mais maduras que os próprios pais.
Orgulho-me muito de minha filha, ela é muito madura, e ela se portou sempre muito bem durante minha separação, e até hoje.
E naquela ocasião, no Parque Villa Lobos, também fiquei muito orgulhoso e feliz com aquela menina, com aparentes 15 anos de idade que, independente dos reveses da vida, enfim aprendeu, naquela tarde ensolarada, a andar de bicicleta.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Importe-se, com quem importa


Estava eu outro dia num Mc Donald´s.
Duas adolescentes ao meu lado, conversando, tagarelando.
Uma dizia que fulana, prima do namorado dela, convidou-os para o aniversário, e ela vai para acompanhá-lo, mas ela não gostaria de ir, porque não gosta da tal fulana, acha que a tal tem certa implicância com ela, mas que ela tem que ir para acompanhar o namorado, etc.
A outra dizia que estava muito incomodada pois o namorado dela não perdia o vínculo com a ex namorada dele, ele ficou amigo da ex, encontrava vez em quando com a tal ex, e ela achava que a ex do cara forçava situações, mas ela tentava compreender porque o cara tinha ficado amigo, etc.
A conversa entre as duas meninas ficou alguns minutos em torno destes assuntos.
E eu ali ao lado comendo meu sanduíche.
Em dado momento não aguentei, me meti no assunto.
Posso dar minha opinião? Comecei.
Se somar as idades de vocês talvez não dê a minha idade. Então tenho um pouco mais de experiência que vocês, certo?
Você, falei para a primeira garota, se você não gosta da prima do seu namorado, se acha que ela tem implicância com você, diga isso a ela. Desenrole esta situação. Talvez nem seja isso, e você passe a vê-la de outra forma. E se você não gosta dela e não quer ir no tal aniversário, então não vá. Não vá num aniversário de quem você não gosta.
Você, disse para a segunda, se você acha que a ex do seu namorado está atrapalhando, e se você não gosta que eles se encontrem, então diga isso a ele, peça para ele parar com isso. E, se precisar, diga também a ela. Resolva. Mas se o seu namorado não quiser deixar de encontrar a ex, então minha linda quem sabe seja hora de você trocar de namorado.
Façam isso, não fiquem guardando sentimentos dentro de vocês, falem o que sentem. Isso as livrará de anos de terapia.
Conversamos um pouco. Elas terminaram o lanche delas, agradeceram, se despediram e foram embora.
E eu fiquei terminando de comer meu Quarterão com queijo. 
Tenho 40 anos, passei grande parte da minha vida medindo o que falava, preocupado com o que escrevia, com os gestos que fazia.
Hoje estou mais à flor da pele. Mais leve. Graças a Deus. Procuro dizer o que eu sinto.
Importe-se com as pessoas, sim. Tenha cuidado com as pessoas, sim.
Mas, por favor, não gaste seu tempo com quem não merece.
Importe-se com quem realmente importa.
Até porque tem muita gente legal que merece muito mais, seus cuidados, seus carinhos, seu tempo, sua energia.
Eu hoje estou assim. Eu sinto, eu falo. Nem em todas as vezes, mas bem mais, muito muito mais que alguns anos atrás. Por vezes tenho problemas com isso, sim tenho, rs. Mas me sinto muito bem com isso.
Vivendo, aprendendo, crescendo.
Pois é. Abraços a todos. Ótimo sábado.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Thriller


Comprei Thriller, o CD mais vendido da história. Não a edição normal, mas uma edição comemorativa de 25 anos do disco, com vários extras. Caramba, viagem total. Não consigo parar de ouvir o CD, é sensacional. Michael Jackson na melhor forma. O que é aquilo ? Compositor de mão cheia, cantor de mão cheia. Que voz, que voz.
O CD começa com dois balanços sensacionais, "Wanna be startin´ something´", para mim uma das melhores do CD, e "Baby be mine". Música negra da melhor qualidade. Eu que sou negão adorei. Não sou ? Rs. Mas tenho raízes. E você que me lê também tem. "Aliás, branco, no Brasil é difícil, porque no Brasil somos todos mestiços, uns com a pele clara, outros mais escura, mas todos viemos da mesma mistura", já disse Gabriel o Pensador. Mas esta é uma outra discussão. Rs.
Não entendo muito disso mas me arrisco a dizer que MJ ajudou a popularizar mundialmente a música negra, atingiu um outro patamar depois dele, os entendidos que me digam se estou correto ou não.
A terceira faixa é "The girl is mine", nada menos que um dueto do Michael com o Paul McCartney. Lindíssima música.
Há muitas outras, diversos hits, "Thriller", "Beat it" ( caraca, que guitarra ), "Billie Jean" que para mim é uma das músicas mais bonitas que conheço. "Human Nature", sem comentários. Há diversas outras. E nesta edição especial há uma música que foi gravada na época mas não saiu na edição original, "For all time", uma canção mais lenta, linda, como só MJ conseguia fazer, assim como outras muitas que já gravou.
A edição extra nos traz ainda outras suspresas, algumas parcerias com músicos atuais, Will.i.am e a Fergie ( show ) do Black Eyed Peas, há outros também, interpretando músicas do Thriller em duetos com o MJ.
E há também um DVD bônus com os clips das músicas "Thriller", "Beat it" e "Billie Jean". No DVD tem também um vídeo com uma performance sensacional de Michael dançando, cara, só vendo para crer. Como o cara dançava, caraca.
Vou te contar, o cara era sensacional. Marcou uma época, fez todo o mundo dançar, cantar, com seu som, sua dança, sua presença, insubstituíveis.
Ouvir este CD deu uma nostalgia danada, uma saudade de uma época mais... inocente. Saudade de quando Michael Jackson era vivo... e de quando ele era... negro.
Fiquei lembrando dos sábados à tarde na casa da minha mãe. Todo mundo novo, eu e meus irmãos. Eu tinha lá meus 13 anos, meus irmãos com 17 e 19. Não tinha MTV, não tinha TV a cabo. Ficávamos vendo aqueles programas que passavam clips do Michael, sempre tinha também alguns concursos com caras imitando o MJ dançar. Quem viveu aquela época lembra bem disso.
Nostalgia total. Como a música nos atinge, caramba, faz isso com a gente. Nos emociona. 
Thriller me fez voltar no tempo.