quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Um monte de coisa


Foto: Waldir C. Marinho
Em janeiro de 2010, nas férias, fizemos uma viagem para a terra natal do meu pai, Santo Antônio de Pádua, no interior do Rio de Janeiro. Viajamos eu, minha filha, meu pai e meu sobrinho João. Onde meu pai nasceu é uma região rural, tem roça, plantações, boiada, ordenha, carro-de-boi, andar com o pé no chão, pegar fruta no pé, etc. etc. etc. Lá é muito legal, nós todos curtimos muito aqueles dias.
Numa das vezes em que cruzamos aquelas diversas estradas de terra topamos com o Sr. Jacinto. O Sr. Jacinto é este senhor que vocês podem ver na foto acima.
Acreditem, aos 84 anos de idade o Sr. Jacinto estava na estrada tocando sua boiada. Pois é.
Quando o encontramos, ele pôs o pé no estribo do nosso carro e a prosa foi longa. Rsrs. Meu pai conhece o Sr. Jacinto há anos, ficamos conversando um tempão. Muitas, muitas histórias, ótimas histórias.
Uma das ‘pérolas’ que ele falou eu não esqueço.
Disse o Sr. Jacinto, nos primeiros dias de janeiro de 2010:

"Que Deus nos garanta um ano melhor. 
Mas o ano que passou foi muito bom.
No ano passado Deus nos tirou muita coisa,
mas nos deixou um monte de coisa também"

Pois é, Sr. Jacinto, sábias palavras. Em 2010 Deus também me tirou muita coisa, mas me deixou um monte, um montão. Por este monte de coisa que Deus me deixou em 2010 eu agradeço, demais.
Creio que todos nós temos a agradecer por este ano que está terminando.
Que neste ano de 2011 Deus também nos deixe um monte, mas um monte de coisa boa.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

No meio do caminho


Foto: Waldir C. Marinho


Estou na estrada, no meio do caminho.
Vindo de São Paulo, rumo ao Rio.
O dia amanhece, primeiras luzes.
Eu indo ao encontro
de meu pai
de minha mãe
de meus irmãos
de minha filha, que já está lá
a minha Mel
e outras pessoas especiais.
Deixo Sampa e me distancio de minha linda.
Mas a levo comigo. Seu sorriso. Seu toque.
Seu olhar de profunda entrega. 
Levo ela em mim.
Tantas pessoas queridas.
Percebo, a distância realmente não existe, estão todos vocês aqui comigo.
Bem aqui no peito.
Não há distância, não no querer.
Só a saudade.
No meio do caminho.
Minha vida.
Penso em quais serão os futuros passos.
Não sei, Deus sabe, mas intuo, antecipo.
Torço.
Sei o que quero.
E peço a Deus que me traga o bem.
Tantas, tantas pessoas especiais, queridas.
Meus tesouros.
São presentes de Deus.
Nem acredito.
Devo ser merecedor, como dizem.
Nem acho que sou, mas Deus é generoso.
Devo ser um cara abençoado.
Percebo que, independente da situação
Deus me abençoa.
Vejo isso agora.
No meio do caminho
com um sentimento de profunda gratidão
em meio a tanto querer
indo ao encontro de tantas pessoas lindas
com ela em mim
com a bênção de Deus
eu choro
de amor.


sábado, 18 de dezembro de 2010

Crianças


Uma das últimas vezes que fui ao Rio. 
Tarde de sábado agradável, tomando um café com ela. 
De repente o tempo fecha e cai a chuva, aquela chuva. 
Forte, muito forte, uma das mais fortes que já vi.
Ficamos olhando pela janela, o temporal molhava tudo, encharcava as paredes externas, as plantas, os carros. 
Após uns cinco minutos de chuva forte, sem parar, em frente de onde estávamos já começava a ter correnteza nos cantos da rua. 
Olhei para ela. Ela me olhou. Sorrimos. 
Sem palavras, no olhar, dissemos: vamos?
Correndo, saímos da casa e entramos na chuva, com a roupa que estávamos, com tudo. 
Rimos, nos divertimos, nos molhamos muito. 
Foi sensacional, lembro agora, uma das ótimas lembranças que tenho dela. 
Olhava para o céu e sentia a água escorrer. 
Ficamos ali um tempão. 
Sensação de alegria. 
Liberdade. 
Lavamos, o corpo, a alma. 
Debaixo da chuva. 
Voltamos a ser crianças. 
Eu e minha mãe.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Gestos


Passam ao meu lado de mãos dadas, buscando atravessar a rua. As mãos se separam, instintivamente, ele a larga primeiro, nem sei, talvez os dois se repelem mutuamente, quase de forma imperceptível. Separados, caminham na calçada, um à frente do outro. Distanciam-se mais. De repente, talvez percebendo algo incorreto, se reaproximam, dão as mãos novamente, como que a cumprir um ritual. O racional os faz contrariar o que a realidade impõe. São um casal, precisam agir assim, juntos, mas o movimento dos corpos, as reações, os gestos, me garantem, não são mais um casal, ou não mais serão.

Ela quer ajuda, precisa, ele estende as mãos em auxílio. Ao chegar mais perto percebe, ela chora. Vendo as lágrimas ele se inclina, em um afago, para o beijo carinhoso, cortês, na fronte, e ela, ao sinal de proximidade, de imediato dispara em querer na sua direção. Em um átimo ela dá as cartas, depois recua, mas não a tempo de evitar ser percebida a filigrana que a expõe. Seus gestos demonstraram. Recebe o beijo, gratifica-se, sente, ah sente, ainda mais. Ela o quer. Anseia por maior conexão. Mas tudo o que ele sente é, tão somente, compaixão.


No restaurante, casal jovem, mesa próxima. Juntos, namoram, se tocam, mas vejo nas atitudes dela algo, mínimo, que parece não responder ao que ele sente. Duvido de minha própria impressão, posso estar enganado. Olho os dois. Meu olhar e o dela se encontram de forma casual. Eles continuam os carinhos mútuos, eu com a mesma sensação anterior. Ele pega o copo, se distrai com alguém que passa, eu novamente a encontro em seu olhar, rápido instante. Eles se acarinham, continuam, se beijam, apaixonados, enamorados então. Penso que me equivocara ao interpretar seus gestos. São casados, agora vejo. Em dado momento se abraçam apertados, ele de costas para mim se entrega e afunda o rosto nos cabelos da amada, e ela, abraçada a ele, se vê, enfim, liberta, e, enquanto o acarinha, por cima do ombro dele me dirige o olhar. Agora com firmeza. Eu tinha razão. Ela mantém os olhos nos meus, e me sorri.


Ele vê televisão, interessado no programa esportivo. Aproveita o prato que ela lhe entregou. Ela não senta à mesa, algo a fazer, procura alguma coisa na cozinha. Ele parece não a notar, continua vendo o programa, comendo, absorto. Ela passa perto, mais uma vez, e vai até a sala. Ele pega mais uma fruta no prato. Ela volta, continua no entorno dele, parece ansiar por atenção, espera poder servi-lo com algo mais, como a querer demonstrar desta forma o que por ele sente. Em dado momento ele volta a cabeça, a procura, a observa, estende o braço. Ela olha em retorno e pega sua mão. Sorriem sutilmente. Sem palavras, se aproximam, se tocam, de leve, mas na proximidade plena do sentir. Nestes gestos, a verdade. Eles se amam, demais, demais. Ela tem 69 anos, ele 75.


Ela demonstra vontade de estar a meu lado. Fica feliz quando me vê, nos encontramos e me acende seu sorriso. Jovem, talvez não consiga interpretar a si mesma, parece não entender ao certo o que se apresenta em seu interior. Por vezes assume, o que deseja, não no pensar, mas no vibrar, sinto em seus movimentos. Não sua mente, não seus pensamentos racionais, esses a bloqueiam, mas seu corpo, seu mover, o dizem. Quando nos aproximamos, ao alcance de um toque, este é inevitável. Sempre. Na despedida um abraço, intenso. Nos abraçamos, e mantemos, além. Ah, que abraço. Nestes instantes, a entrega. Mútua. Nossos corpos colados, afagos, ainda assim contidos, ou quase, ansiados. Os corpos reagem. Ela crê ser algo impensável. Ela é comprometida, eu não. Reluta, recusa, não acredita, nega. Mas seus gestos proclamam, e os meus. Ela me quer, eu também.


Podes recuar. Podes recusar. Podes fingir.

Podes até tentar se iludir, mentir, a si.
Podes acreditar mais no que é racional.
No que te é mais seguro.
Podes negar o que teu peito te grita.
Podes procurar externar algo diferente.
Mas a verdade, esta sempre se apresenta.
Pois, a cada movimento, mostras o que és.
Teus gestos te entregam o íntimo.
Eles falam por ti.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Sim


Sim, seguro sua mão quando precisar, e espero que possas me devolver o gesto, que me acarinhes em retorno enquanto lhe apoio, lhe toco, nos tocamos.

Sim, posso elogiar seus cabelos, seu vestir, sua beleza, seu charme, mesmo sabendo que recebes muitos elogios por aí, mas conto que valorizes apenas os meus.

Sim, tenho interesse em saber onde moras, se quiser de fato me receber, em sua casa, em sua vida, em seu peito.

Sim, até posso tentar semear seus sonhos se acreditas em jardins que devem ser cuidados em conjunto, em comunhão.

Sim, medos todos temos, reais para quem os tem, procurarei não lhe incomodar com os meus, e conto com seu carinho, seu amor, sua participação ativa em minha vida contribuindo para amansá-los, e me ofereço sinceramente para fazer o mesmo por ti.

Sim, lágrimas acontecem por vezes, que possamos evitá-las, mas se acontecerem que sejam de alegria, de paixão, e sendo por quaisquer motivos que as nossas lágrimas se misturem no esforço em alcançar o bem comum.

Sim, que tentemos perdoar nossos erros na medida em que percebamos um no outro a busca franca de acertar.

Sim, que possamos sempre demonstrar, tão somente, simplesmente, o que realmente sentimos.

Sim, desejo que seu fôlego lhe seja furtado na procura intensa de me roubar o meu.

Sim, permita-me abrir-te, aos poucos, meu coração, tanto quanto confiar em ti, e espero que faças o mesmo por mim, enquanto assim eu conseguir, com o decorrer dos dias, também lhe conquistar.

Sim, se o que eu lhe oferecer for compreendido por ti como pouco, conto que entendas que pode ser uma forma de defesa, assim como quero fazer o mesmo caso perceba isto de sua parte, e que possamos com o tempo nos conhecer mais e mais, nos ofertar, e na gradativa entrega mútua merecermos, cada vez mais, o máximo, um do outro.

Sim, que possamos desfrutar da eternidade de cada instante juntos.

Sim, minha linda, é o que espero de ti, em resposta ao meu, o seu, sonoro, profundo, sentido, sincero, recíproco, sim.





Redigi este texto baseado em um outro, de nome “Não”, autoria da Camila Paier. A Camila Paier é uma gaúcha que tem um blog muito bacana, que vocês podem visitar em calmila.blogspot.com. Ela escreve muito bem, recomendo. O texto que citei, “Não”, a partir do qual formulei o meu, vocês encontram no link: http://calmila.blogspot.com/2010/11/nao.html. Como este texto que fiz foi baseado no texto da Camila muito do que escrevi veio de lá, aliás apenas postei aqui após a concordância dela. Entrem no blog da Camila, leiam os textos, vão gostar.



sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Quase luz


Foto: Ricardo Veloso


Saí de São Paulo antes das 5 da manhã, em direção a Bauru. Castelo Branco às escuras, envolta em brumas volta e meia, névoa que o farol do carro denuncia. Logo fica mais espessa, longa, duradoura treva. Ponho o farol baixo e observo, deixo a névoa em paz, sem expô-la, apenas com a tez que lhe dá a noite. O fog tem cor, ou a manhã a tem, uma certa luminescência se apresenta. Uma turva luz, ou quase luz, começa a brotar. Que belo, que lindo, algo especial, deleitoso, meio fantasmagórico. A manhã dá mostras de sua futura presença, ilumina o negrume, aos poucos, grão por vez, a ponto de eu duvidar se era, de fato, luz. Passei o dia em Bauru e voltei a São Paulo no fim da tarde. Escureceu no caminho de volta. Em certo momento, já com a noite instalada, tive a visão, que visão ! Ela, que estava a me esperar após uma curva, se mostrou em majestosa presença. A lua, linda lua. Não qualquer lua, mas a lua em sua melhor forma, em sua maior beleza, enorme, próxima ao horizonte, amarela, linda, linda, me sorriu. Sorriu para todos nós. Humanos que somos, para nós Deus se mostrou novamente, nos sorriu através dela, da lua. Que Deus maravilhoso é este, que nos mostra quão pequenos somos, e por conseguinte quão pequenos são nossos problemas, diante do tamanho esplendor de sua obra, seja na luz singela da manhã ou no fulgor de uma lua de beleza imensa. Todos os dias Deus nos faz saber que, mesmo pequenos, merecemos tamanha beleza. Nos brinda com imenso espetáculo, o espetáculo de seu amor, incondicional, independente de quão mínimos sejamos diante do Pai. A todo instante Deus nos faz lembrar de seu amor, por nós, por todos nós.



P.S.: Esta viagem ocorreu em maio de 2009. Para quem não sabe a Castelo Branco é uma das rodovias que ligam São Paulo capital ao interior do estado. Chegando de volta à capital, ainda na estrada, abri o notebook e escrevi este texto. Para mim este texto tem uma importância muito grande. Por representar uma época muito especial, mas não só por isso. A simplicidade de uma observação do meu entorno, durante a viagem, mostrou-se uma metáfora da minha vida. Minha vida da época, e de agora, ao trazer sensações, suaves texturas de um futuro otimista, vislumbre do tempo que virá. E a presença, marcante, absoluta, de Deus em minha vida, a ponto de ao escrever estas linhas, agora, as lágrimas se aproximarem. Que a escuridão seja superada, que a névoa se dissipe, e que mais e mais eu consiga observar, alcançar, a luz. Intensa luz. Como a de uma lua de imensa beleza.




sábado, 13 de novembro de 2010

Mudei o foco




Venho tentando nestes últimos dias escrever alguma coisa aqui no blog, sem inspiração, sem sucesso.
Mente atribulada, desconforto, desequilíbrio interno, sem paz interior. Isso durante estes últimos dias. Até comecei a tentar escrever alguma coisa, mas certamente acabaria não saindo algo muito legal. Então decidi não escrever nada, desisti. E assim fiquei por um tempo.
Ontem pela manhã eu estava no trânsito ainda desta forma, pensamentos desorientadores, nutrindo sentimentos pequenos, rancor, mágoa, lembranças ruins, dificuldade em esquecer o passado.
Mas aí uma luz me veio. Me atingiu.
Lembrei de minha filha.
Lembrei da última vez em que eu estive com ela, quando a ajudei a fazer um trabalho do colégio. Vimos TV, rimos, conversamos, escutamos música, comemos juntos.
Lembrei também da última vez em que fomos ao cinema. Foi um dia especial. Eu passei um dia incrível no trabalho, deu tudo certo, muito agradável mesmo, o dia inteiro. E durante este dia surgiu a idéia de ir ver à noite um filme que minha filha queria muito ver mas já estava quase saindo de cartaz. Eu estava em outro município, foi uma maratona, mas consegui pegá-la e chegamos exatamente 5 minutos antes da sessão iniciar, às 20:45. Na hora. Comemos pipoca, vimos o filme. Um dia perfeito.
Lembrei disso tudo ontem no trânsito.
Lembrei que neste fim de semana agora eu vou encontrá-la novamente.
E aí, lembrando de minha filha, ontem pela manhã no trânsito indo ao trabalho, os meus pensamentos que até então eram desagradáveis começaram a mudar.
Com minha filha em mim, fui esquecendo o rancor, a mágoa. Veio um sentimento de gratidão. Por tê-la em minha vida. Muita gratidão. E as lágrimas começaram a cair.
Foi dessa forma que minha filha veio me resgatar, em pensamento, em sentir, ontem no trânsito, pela manhã. E me trouxe paz.
Temos tantas coisas boas em nossas vidas e por vezes insistimos em ficar remoendo coisas ruins. Nutrindo sentimentos pequenos. Todos temos algum motivo para sorrir, basta procurar direito, basta olhar na direção correta.
Então decidi agora contar isto para vocês. Sobre como pensar em minha filha me fez feliz.
Ainda bem que não escrevi antes, quando eu estava com o astral lá embaixo. Sim porque certamente eu escreveria sobre tristeza, sobre egoísmo, sobre solidão, sobre mágoa, sobre outros sentimentos ruins.
Só que eu mudei o foco, consegui fazer isso.
E aí resolvi escrever sobre minha filha.
Resolvi escrever sobre o amor.





sábado, 6 de novembro de 2010

Anjos


Foto: Waldir C. Marinho

O último aniversário do meu avô foi uma data muito especial, pois ele fez 100 anos. 

Meu avô e minha mãe, uma de suas filhas, construíram uma relação muito bonita. Quem os conhece sabe da dedicação de minha mãe pelo meu avô. Há muitos anos ele mora com meus pais, e minha mãe cuida dele com muito carinho. 

Meu avô é um doce de pessoa, está sempre bem humorado, é carinhoso, gosta de beijar todo mundo. Parece uma criança. É muito saudável mas devido à idade precisa de cuidados especiais. Ele precisa de apoio para caminhar, por exemplo. Para outras coisas também. E minha mãe sempre está ao lado dele.

Meu avô é bem lúcido mas por vezes a memória falta um pouco. E minha mãe gosta de estimular a memória dele fazendo alguns exercícios. Ela costuma perguntar a ele se conhece as pessoas que estão por perto. "Quem é esse aqui ?", ela pergunta apontando para alguém ao lado. "Qual é o nome deste seu filho aqui ?", "O que é que aquela ali é sua ?". E meu avô responde, às vezes acerta, às vezes erra. E quando ele erra minha mãe ensina pacientemente.

Minha mãe costuma chamar meu avô de "vovozinho". Para meu avô minha mãe não é somente filha, é também amiga, mãe, é irmã, neta, professora, é um monte de coisa.

Um dia desses minha mãe, para estimular a memória dele, não perguntou sobre outras pessoas mas perguntou sobre ela mesma.

Disse minha mãe:
"O que é que eu sou sua ?"

Respondeu meu avô:
"Você é meu anjo"


segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Junto ao mar


Foto: Waldir Marinho


Sábado bem cedo
Primeiros raios atravessam leves nuvens
Que logo se dissiparão
No meu carro
Devagar
Sinto a brisa
O frescor
Ao lado, o mar
Barra da Tijuca
Percorro a avenida da praia
Começam os movimentos da manhã
Ao som de Chet Baker
Acordes iniciais de Round Midnight
Trompete suave
Belas notas
Que se harmonizam com o momento
Pessoas, poucas, caminham, preguiçosas
A criança e seu cachorro
O vendedor atravessa a rua rumo ao quiosque
A loira e sua anca apetitosa
O casal de idosos
O tímido soslaio da morena
Dirijo
Observo
Curto
Cada segundo
Chet Baker parece perceber
E me acompanha com inspirada melodia
Prédios à esquerda, raros carros
À direita o calçadão
Olho para o lado, ao fundo, o mar
Observo o mar
Sua beleza
Seu som
Aprecio seu bailar
Emoldurando cada instante
O branco invade a areia
A luz do sol clareia as ondas
Branqueando ainda mais a espuma
A natureza se completa
Em sinergia
As notas do trompete parecem acompanhar o ritmo das ondas
Ou é o inverso
Ou as duas coisas
As notas
As ondas
Se combinam
Tudo parece em velocidade reduzida
Som e movimento
Num transe de beleza
O sol, o som, a brisa, as notas, as ondas
Uma lágrima quase me acontece
Ouvindo Chet Baker
Junto ao mar



sábado, 30 de outubro de 2010

Um sopro de Rubem Alves

Para reflexão, trecho de uma crônica do livro "Do universo à jabuticaba", de Rubem Alves, editora Planeta.
Rubem Alves, segundo a "orelha" do livro citado, é pedagogo, poeta, cronista, contador de estórias, ensaísta, teólogo, acadêmico, autor de livros e psicanalista, além de ser um dos escritores mais famosos do Brasil, entre outras coisas.
Tenho uns 4 livros do Rubem, recomendo. Gosto muito de suas crônicas. Espero que gostem também.
Abraços, ótimo fim de semana.

Quando eu gosto eu digo
 - Rubem Alves -

Passava diariamente em frente à minha casa uma moça. Teria seus vinte anos. Ela tinha um defeito na sua perna, o que a fazia mancar. Da janela da minha casa, protegido pelas cortinas, eu a observava. Seu rosto era bonito. E me dava uma vontade imensa de atravessar a rua, ir até ela e lhe dizer: "Acho você muito bonita...". E, sem esperar resposta, voltar depressa para minha casa. Nunca o fiz, por medo. Medo de que ela não me entendesse. Fico a pensar: "Por que temos medo de dizer a uma pessoa que gostamos dela?". Minha mãe, imagino que ela gostasse de mim. Mas ela nunca me disse. Nem o meu pai. Teria sido tão bom se ela me abraçasse e dissesse: "Meu filho, como eu gosto de você!". Dirão que não é preciso. Discordo. É preciso. Escrevi uma carta para meu irmão mais velho que começava assim: "Meu querido irmão Ismael...". Ele me respondeu espantado: "É a primeira vez na minha vida que alguém me chama de querido". E ele já estava nos seus 75 anos de idade! Resolvi que não vou ficar atrás da cortina, espiando. Quando eu gosto, eu digo.